O homem do Kremlin que visitou Lula fora da agenda e nossa marinha
Patrushev comandou a espionagem russa por 16 anos. Ele esteve no Brasil, se reuniu com Lula fora da agenda oficial e circulou por Defesa, Itamaraty e o Atlântico. Ninguém explicou por quê
RIO DE JANEIRO, 13 de agosto de 2026 — Alguém precisa perguntar o que está acontecendo com a política externa brasileira. Porque a sequência dos últimos dias não fecha como coincidência.
Comece pelos Estados Unidos. No dia 4 de agosto, o governo Donald Trump cancelou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, que ocupa o posto desde 2023. A medida foi tratada por autoridades americanas como retaliação à demora do Brasil em aprovar o nome de Daniel Perez, indicado por Trump para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília desde junho. Segundo o Itamaraty, o governo brasileiro sequer foi avisado previamente.
Ao mesmo tempo, a China, maior parceira comercial do agronegócio brasileiro, mantém uma sobretaxa adicional de 55% sobre a carne bovina que ultrapassar a cota de importação acertada entre os dois países. É dinheiro saindo do bolso do produtor brasileiro em um momento de fricção crescente com o Ocidente.
Com a Argentina, a crise já é chamada por integrantes do próprio governo Lula de a mais grave em mais de quatro décadas. Em 4 de agosto, as relações foram rebaixadas ao nível de encarregado de negócios: o embaixador argentino foi dispensado e o embaixador brasileiro, Julio Bitelli, permaneceu retido em Brasília.
Com o Paraguai, o desgaste vem em duas frentes. Uma delas envolve a Agência Brasileira de Inteligência, acusada de ter monitorado autoridades paraguaias durante negociações sobre as tarifas da usina de Itaipu, episódio que levou o Congresso brasileiro a cobrar explicações formais do Itamaraty e da Casa Civil. A outra é mais recente: um discurso do presidente Lula na fábrica da Avibras, em Jacareí, sobre a Guerra do Paraguai, motivou a convocação do embaixador brasileiro em Assunção pelo governo paraguaio no fim de julho.
E há Israel. O governo israelense mantém, desde fevereiro de 2024, a declaração de que Lula é persona non grata em território israelense, depois de o presidente brasileiro comparar a ofensiva em Gaza ao Holocausto. A posição segue oficialmente em vigor: em 2025, quando o Brasil não respondeu ao pedido de aprovação de um novo embaixador israelense indicado por Israel, o próprio governo israelense reafirmou publicamente que a condição de Lula como persona non grata permanece.
Cinco frentes. Cinco parceiros ou vizinhos relevantes. Todos em atrito simultâneo com o governo brasileiro.
Agora vem essa.
Nikolai Patrushev esteve no Brasil. Não se trata de um assessor qualquer. Patrushev dirigiu o FSB, o serviço de inteligência russo herdeiro da KGB, e depois passou 16 anos como secretário do Conselho de Segurança da Rússia, um dos cargos mais próximos do círculo de decisão de Vladimir Putin. Hoje ele preside o Conselho Marítimo russo, mas segue sendo descrito por analistas de defesa como uma das figuras mais influentes da estrutura de poder do Kremlin.
Ele chegou a Brasília em 4 de agosto e se reuniu com o presidente Lula em um encontro que, segundo reportagens do período, não constava na agenda oficial divulgada pelo governo brasileiro. No mesmo dia, Lula também teve uma ligação telefônica de cerca de uma hora com Putin, na qual, segundo o próprio presidente, tratou de comércio bilateral e da guerra na Ucrânia.
Nos dois dias seguintes, a delegação russa circulou por instituições estratégicas brasileiras: Ministério da Defesa, Itamaraty, Marinha, Arsenal de Marinha, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o NAM Atlântico, maior navio de guerra em operação na América Latina. Os temas oficiais tratados foram cooperação em energia, pesquisa científica, indústria naval e comércio, segundo balanços divulgados após os encontros.
Aqui está a contradição que considero central. Enquanto o governo brasileiro acumula desgastes com Washington, Pequim, Buenos Aires, Assunção e Jerusalém, um dos nomes mais associados ao aparato de segurança e inteligência russo obtém acesso direto a instalações militares brasileiras, incluindo o maior navio de guerra da região.
A pergunta não é se o Brasil pode dialogar com a Rússia. Todo país soberano conversa com quem quiser. A pergunta é qual estratégia orienta essas escolhas, e por que o padrão observado é justamente o de afastamento dos parceiros tradicionais e aproximação simultânea de um regime hoje sob sanções internacionais por causa de uma guerra de agressão na Ucrânia.
Política externa não é torcida organizada. Cada aceno tem preço econômico, diplomático e estratégico. A sobretaxa chinesa afeta diretamente o pecuarista brasileiro. O racha com os Estados Unidos ameaça investimentos e cooperação em segurança. A crise com a Argentina compromete o Mercosul. E o acesso concedido a Patrushev a instalações navais brasileiras, justamente quando a Rússia busca alternativas logísticas em meio às sanções sobre sua marinha mercante, não é um detalhe protocolar.
Quando todas essas peças são colocadas lado a lado, fica difícil tratar cada uma isoladamente. A pergunta que fica é simples: o Brasil está se aproximando de quem, e se afastando de quem? E quem, dentro do governo, está de fato desenhando essa estratégia?
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Luisinarco já deu o golpe de estado comunista! Vai meter o Lisarb lulazista em uma guerra e vamos perder a nação!