O legado tóxico de Paulo Freire chegou ao fim da linha e seus filhos vão pagar a conta
A fraude educacional que ninguém quer chamar pelo nome
Manaus - Amazonas | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (002)
Há uma regra nova em vigor em pelo menos três estados brasileiros — Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Paraíba — que deveria estar no topo da agenda nacional. Um aluno pode reprovar em até seis disciplinas e, ainda assim, ser promovido para o ano seguinte. Não é boato. Não é exagero. É política pública.
O resultado imediato foi previsível para qualquer um disposto a enxergar a realidade: as taxas de aprovação dispararam mais de dez pontos percentuais em um único ano letivo. No papel, os números melhoram. O IDEB sobe. Os gestores comemoram. Os secretários de educação divulgam notas à imprensa celebrando “avanços”. E os alunos seguem sem saber ler, sem saber calcular, sem saber escrever uma redação coerente.
Isso não é uma distorção do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.
A ilusão métrica
Existe uma diferença fundamental entre melhorar a educação e melhorar os indicadores da educação. O Brasil escolheu o segundo caminho há décadas, e as consequências estão escancaradas nos dados que os próprios defensores do modelo preferem não debater.
Metade das crianças brasileiras não está plenamente alfabetizada ao final do segundo ano do ensino fundamental — o prazo mínimo que qualquer especialista sério reconhece como referência básica. No PISA, avaliação internacional que mede desempenho em leitura, ciências e matemática, o Brasil ocupa posições que envergonhariam qualquer país que se leve a sério: 65º lugar em matemática entre 81 países participantes na última edição. São números que não mentem, por mais que a narrativa oficial insista em contextualizar, relativizar e justificar.
A resposta dos gestores a esse cenário não foi elevar a exigência. Foi abaixar a régua. Se o aluno não aprende o suficiente para ser aprovado, aprovamos o aluno de qualquer maneira. O problema desaparece da estatística. A crise continua nas salas de aula.
A raiz do problema
Seria cômodo tratar isso como incompetência administrativa isolada. Não é. Há uma visão de mundo por trás dessa escolha, construída ao longo de décadas de hegemonia de uma determinada corrente pedagógica nas faculdades de educação, nos cursos de formação de professores e nas secretarias estaduais e municipais espalhadas pelo país.
Paulo Freire — figura reverenciada à esquerda e consagrada como Patrono da Educação Brasileira por lei federal — construiu uma pedagogia que, em seus fundamentos, subordina o ensino do conteúdo à formação da consciência política. Em sua obra mais influente, ele definiu o ensino tradicional como “educação bancária” — uma metáfora que equipara a transmissão de conhecimento a um depósito passivo, desprovido de sentido crítico. O aluno não deveria receber conteúdo: deveria “construir seu próprio saber” a partir de sua realidade.
A crítica à “educação bancária” soou progressista. Vendeu bem. Espalhou-se por gerações inteiras de pedagogos, coordenadores e gestores. Mas o efeito prático foi devastador: esvaziou o currículo, desvalorizou o domínio técnico de conteúdos básicos e criou uma cultura institucional na qual reprovar um aluno passou a ser visto não como uma resposta pedagógica legítima, mas como uma forma de violência simbólica — opressão do mais forte sobre o mais fraco.
Em um sistema assim formatado, é perfeitamente coerente que um aluno reprovado em seis matérias seja promovido. Afinal, reprovar seria humilhar. Exigir seria oprimir. Cobrar domínio do básico seria perpetuar a “educação bancária”.
O custo real
Há um personagem ausente desse debate: o aluno pobre.
O filho da classe média e da elite tem rede de proteção. Tem aula particular. Tem acesso a cursinhos, plataformas digitais, familiares escolarizados que suprem as lacunas do ensino público. Quando a escola falha, o mercado cobre — para quem pode pagar.
O filho da periferia, da zona rural, da família sem renda para pagar reforço escolar, não tem essa rede. O que a escola pública entrega é tudo o que ele tem. E quando essa escola entrega um diploma sem entregar conhecimento, ela não está incluindo esse aluno — está selando sua exclusão de forma mais elegante e mais cruel do que qualquer reprovação jamais faria.
O analfabetismo funcional não é uma estatística abstrata. É a barreira que impede um jovem de preencher um formulário, interpretar uma bula de remédio, compreender um contrato de trabalho, entender um noticiário. É a limitação que o mantém vulnerável, dependente e sem mobilidade social. É o fracasso que o sistema disfarça de compaixão.
O que os números escondem
Quando o IDEB sobe porque os alunos foram aprovados sem aprender, o índice deixa de medir o que deveria medir. Vira uma fotografia retocada: apresenta um resultado que não existe, celebrado por gestores que sabem — ou deveriam saber — que a imagem é falsa.
Essa distorção tem consequências que vão além das estatísticas. Ela alimenta políticas equivocadas, justifica a manutenção de práticas que não funcionam e impede que o diagnóstico correto seja feito. Se o IDEB está subindo, por que mudar? Se as taxas de aprovação estão em alta, por que revisar o método?
O problema é que nenhum índice manipulado prepara um jovem para o mercado de trabalho, para a universidade ou para o exercício pleno da cidadania. A fraude estatística não viaja com o aluno.
O que a solução parece
Não é necessário inventar nada. Países que constroem sistemas educacionais de alta performance — Coreia do Sul, Finlândia, Estônia, Singapura — compartilham alguns denominadores comuns: currículos claros e exigentes, professores valorizados e bem formados, avaliações externas sérias com consequências reais, e uma cultura institucional que trata o domínio do conhecimento como objetivo central da escola.
Nenhum desses países aboliu a reprovação por decreto. Nenhum deles confunde aprovação com aprendizagem. Nenhum deles fez seus indicadores subirem baixando as exigências — fizeram seus indicadores subirem porque seus alunos, de fato, aprenderam mais.
O Brasil tem capacidade técnica, tem experiências bem-sucedidas em municípios e estados espalhados pelo país, tem professores dedicados e tem diagnóstico — o problema não é falta de informação. É falta de vontade política para romper com uma narrativa que, há décadas, confunde ideologia pedagógica com método eficaz.
Conclusão
Promover um aluno que reprovou em seis matérias não é gesto de humanidade. É abandono disfarçado de inclusão. É a decisão de entregar a esse aluno um certificado no lugar de uma competência — e torcer para que ele não precise usá-la.
A educação brasileira não está em crise por falta de recursos, por falta de leis ou por falta de debates. Está em crise porque, em algum momento, decidimos que era mais importante o aluno se sentir bem do que saber. Que era mais relevante conscientizá-lo politicamente do que ensiná-lo a ler. Que era mais progressista aprovar do que exigir.
O resultado está nos rankings internacionais, nas taxas de analfabetismo funcional e, agora, nas portarias que oficializam o que já era prática velada: a progressão sem aprendizagem como política de Estado.
Nossos filhos merecem mais do que isso. Merecem uma escola que os prepare para o mundo real — não uma que os aprove para não constranger quem decidiu que conhecimento é secundário.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


