O povo colombiano despertou
A eleição colombiana não foi apenas uma disputa entre direita e esquerda. Foi um referendo sobre segurança, narcotráfico e o legado das FARC
MIAMI, 22 de junho de 2026 — Quem observa a política colombiana apenas pelas lentes ideológicas costuma perder o principal elemento que molda o país há mais de meio século: a presença de grupos armados financiados pelo narcotráfico.
As FARC nasceram nos anos 1960 como uma guerrilha marxista inspirada pela Revolução Cubana. Durante décadas, apresentaram-se como um movimento revolucionário. Na prática, porém, acabaram se transformando em uma das maiores organizações narcoterroristas do planeta, financiando suas operações por meio do sequestro, da extorsão e, principalmente, da produção e exportação de cocaína.
O acordo de paz firmado em 2016 não eliminou esse problema. Uma parte das FARC entregou as armas e ingressou na política institucional, criando o partido que posteriormente se tornou o Comunes. Ex-comandantes guerrilheiros passaram a ocupar assentos no Congresso colombiano, resultado das garantias previstas no acordo.
Mas a história não terminou aí.
Diversos comandantes recusaram o processo de paz ou retornaram à clandestinidade após assinarem os compromissos. Surgiram as chamadas dissidências das FARC, grupos armados que continuam operando em vastas regiões do país, especialmente próximas às fronteiras com Venezuela, Equador e Brasil.
Hoje, a Colômbia enfrenta uma situação paradoxal: antigos líderes guerrilheiros participam da política nacional enquanto facções dissidentes continuam atuando como exércitos irregulares ligados ao narcotráfico.
O problema não se limita às FARC.
O Exército de Libertação Nacional (ELN), outra guerrilha de orientação marxista, segue ativo. Além disso, organizações criminosas disputam corredores de tráfico de drogas, mineração ilegal, contrabando e controle territorial em diversas regiões.
A cocaína continua sendo o combustível financeiro desse sistema.
Mesmo após décadas de combate, a Colômbia permanece como o maior produtor mundial de cocaína. Milhares de hectares de plantações de coca continuam espalhados pelo território nacional, alimentando um mercado internacional bilionário que abastece consumidores nos Estados Unidos, Europa e outras regiões do mundo.
Essa realidade ajuda a explicar por que a segurança pública se tornou um dos temas centrais da eleição.
Enquanto setores da esquerda defendem negociações mais amplas com grupos armados e programas sociais como solução prioritária, parte significativa da população acredita que o Estado perdeu capacidade de impor sua autoridade em diversas regiões do país.
Para muitos colombianos, o debate não é abstrato.
É uma questão de sobrevivência.
Em áreas rurais, comunidades convivem com extorsões, recrutamento de menores, deslocamentos forçados e confrontos entre grupos armados. Em corredores estratégicos do narcotráfico, o poder real frequentemente não está nas mãos do Estado, mas de organizações criminosas.
A vitória apertada de Abelardo de la Espriella deve ser interpretada dentro desse contexto.
Mais do que uma mudança ideológica, o resultado preliminar sinaliza que uma parcela expressiva dos eleitores deseja uma política mais agressiva contra o narcotráfico, as dissidências guerrilheiras e o crime organizado.
Mas o desafio do novo governo será enorme.
Nenhum presidente colombiano conseguiu derrotar definitivamente as estruturas que sustentam o narcotráfico. Elas sobreviveram à queda de Pablo Escobar, à fragmentação dos cartéis, às ofensivas militares contra as FARC e até mesmo ao acordo de paz de 2016.
A Colômbia continua sendo uma democracia vibrante, mas também um país que ainda trava uma guerra de baixa intensidade contra organizações armadas que movimentam bilhões de dólares e possuem presença em regiões onde o Estado permanece frágil.
A eleição acabou.
O conflito que molda a Colômbia há mais de cinquenta anos, não.



