RIO DE JANEIRO, 16 de setembro de 2026 — Oito dias. Foi o tempo que o decano do Supremo Tribunal Federal precisou para jogar no lixo a liturgia do cargo que ocupa há mais de duas décadas.
Na terça-feira, 8 de setembro, Gilmar Mendes estava na Itália, no Lago de Como, para um casamento. Tinha pedido vista num julgamento da 2ª Turma e estava longe do tribunal. Por lá já passava das onze da noite quando ele pegou o celular e escreveu para Kassio Nunes Marques, presidente do TSE. A mensagem, revelada pela imprensa, dizia: “Assumam que estão ferrados e saiam dos processos. Abram as contas.”
Um ministro do Supremo, de madrugada, em outro continente, mandando um colega admitir que está “ferrado”. Não é debate jurídico. É intimidação por WhatsApp.
Kassio respondeu do único jeito possível. Bloqueou o decano.
Gilmar não parou. Foi cobrar Luiz Fux, acusando o colega de fazer parte de um suposto acerto com André Mendonça e Kassio para afastar o diretor-geral da Polícia Federal. Ouviu de volta, segundo a coluna de Andreza Matais, no Metrópoles: “Cuide de não encher meu saco.”
Ontem, a baixaria ganhou transmissão ao vivo. No plenário que discutia o relatório da PF com as mensagens de Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, Gilmar acusou Mendonça de agir com viés político-eleitoral. Antes, já tinha dito que quem afasta um diretor-geral da PF “tem que se algemar”. Mendonça chamou a postura de leviana e pediu que ele tirasse o dedo da cara dele. Edson Fachin, que abriu a sessão implorando serenidade, teve de suspender os trabalhos.
E no meio dessa crise, o decano ainda achou oportuno defender que não se deve expor colegas, mesmo envolvidos, com uma frase que diz tudo sobre a cultura que ele pretende proteger: “Até a máfia tem ética.”
Eu preciso ser direto. Isso é inaceitável.
É desrespeitoso com os colegas, que foram ameaçados, acusados e constrangidos em público e em privado. É inadequado para qualquer juiz, de qualquer comarca deste país. E é imoral quando parte de quem deveria ser a reserva de equilíbrio da Corte. O decano não é só o ministro mais antigo. Deveria see a referência. É quem os mais novos deveriam olhar para saber como se comporta um magistrado. Gilmar escolheu ensinar o contrário.
Um juiz de primeira instância que mandasse mensagem desse tipo a um colega responderia a processo disciplinar no dia seguinte. No Supremo, vira manchete e segue a vida.
E aí vem a pergunta que ninguém em Brasília quer fazer em voz alta. Por que tanta fúria?
A resposta confortável é a lealdade a Moraes. Mas lealdade não faz ninguém ameaçar colega às onze da noite. Medo faz.
E existe uma história que ajuda a entender de onde esse medo pode vir.
Em julho, numa sessão tensa, Mendonça provocou Gilmar dizendo não saber se a CBF sobreviveria a uma investigação. Muita gente riu. Eu fui atrás.
Em 16 de agosto de 2023, a CBF assinou uma parceria com o IDP para gerir a CBF Academy, o braço de cursos da confederação. O IDP foi fundado por Gilmar Mendes, que se declara sócio da instituição. Quem assinou o acordo pelo instituto foi o diretor-geral, Francisco Schertel Mendes. O filho do ministro.
Segundo o contrato revelado pela revista Piauí, o IDP fica com 84% da receita bruta dos cursos. A CBF, dona da marca e da estrutura, fica com 16%. Só em 2023, foram R$ 9,2 milhões de faturamento. O contrato vale até 2033, com multa pesada para quem quiser sair.
Em janeiro de 2024, a Justiça do Rio afastou Ednaldo Rodrigues, o presidente da CBF que tinha assinado aquele contrato. Quem o devolveu ao cargo, sozinho, numa canetada monocrática, foi Gilmar Mendes. Sem se declarar impedido. E, segundo a mesma Piauí, o rito normal do tribunal teria levado o caso a outro gabinete. Justamente o de André Mendonça.
Gilmar diz que não vê conflito nenhum. Que é um contrato privado, tocado pela direção do IDP. A direção, no caso, é o filho dele. A PGR arquivou o pedido de apuração e o assunto morreu por ali.
Eu não aceito que morra.
Não estou dizendo que houve crime. Estou dizendo que um ministro cujo instituto recebe 84% da receita de um braço da CBF jamais deveria ter decidido quem manda na CBF. Isso não exige investigação para ser reconhecido. Exige apenas vergonha.
E é exatamente aí que a semana de fúria do decano ganha outro sentido. Quando um colega abre o celular de um banqueiro e expõe as conversas de outro ministro, a toga deixa de ser blindagem. E quando essa porta se abre, ninguém controla quem será o próximo a passar por ela.
Em oito dias, Gilmar Mendes foi bloqueado, mandado parar de encher o saco e chamado de leviano em plenário. Por três colegas diferentes. Não por jornalistas, não pela oposição, não pelas redes. Pelos próprios pares.
Quando até dentro do Supremo ninguém aguenta mais o decano, o problema não é dos outros.
Então deixo a pergunta. Quando Gilmar Mendes parte para cima de quem quer investigar um ministro do Supremo, ele está defendendo Alexandre de Moraes?
Ou está com medo de até onde essa investigação pode chegar?
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Ousado, esse Gilmarzinho! Mencionar a Máfia é uma ousadia, pois aquela organização tem respeito.