O que Lula sabe sobre Sidônio que nós ainda não sabemos?
Briga interna, vaidade ferida ou uma bomba que ainda não explodiu? O que o Planalto não está contando sobre a saída do chefe da comunicação da campanha que elegeu Lula em 2022
RIO DE JANEIRO, 11 de agosto de 2026 — Será que vem mais bomba por aí? Depois do que aconteceu com Marcola, chefe de gabinete da presidência da república, é impossível não fazer a pergunta: o que Lula sabe sobre Sidônio Palmeira que nós ainda não sabemos?
Vamos aos fatos, porque eles importam.
Sidônio Palmeira não é qualquer um. Foi o marqueteiro que comandou a comunicação da campanha que devolveu Lula ao Planalto em 2022. Em janeiro de 2025, virou ministro da Secretaria de Comunicação Social, a Secom. Consolidou-se, na avaliação unânime da imprensa, como um dos auxiliares mais influentes do governo. Havia, inclusive, manifestado o desejo de deixar o ministério para se dedicar integralmente à reeleição do presidente.
Pois bem. Na segunda-feira, 10 de agosto, o jornal O Globo revelou que Lula decidiu afastar Sidônio do núcleo responsável pelo dia a dia da campanha. O ministro permanece na Secom, despachando no Palácio do Planalto, mas fora da equipe eleitoral. Poderá, segundo aliados, opinar apenas pontualmente. O marketing da campanha deve ficar com Raul Rabelo, sócio do próprio Sidônio, ao lado de Chico Kertész e de Tiago Cesar dos Santos, ex-número dois da Secom.
E aqui entra o primeiro dado que deveria incomodar qualquer observador atento: a decisão veio a seis dias do início da propaganda eleitoral. Faltando menos de dois meses para o primeiro turno, Lula rompeu o desenho que venceu a eleição de 2022.
Quem troca o comandante da comunicação na véspera da batalha?
As explicações oficiosas existem, e é justo registrá-las. Segundo O Globo, houve desgaste em reuniões internas e insatisfação do presidente com o trabalho recente do marqueteiro. A Gazeta do Povo apurou que o episódio determinante teria sido um bate-boca entre Sidônio e Marcola diante do próprio Lula, quando o presidente criticava o tom considerado “leve” demais de uma peça da Secom. Há ainda relatos de incômodo, no PT e no entorno presidencial, com a concentração de poder nas mãos do ministro. Pode ser só isso? Pode. Briga de corte, vaidade, disputa de alas. A política vive disso.
Mas é o segundo nome dessa história que muda a natureza da pergunta.
Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, era o chefe de gabinete de Lula. Deixou o Planalto em 21 de julho, oficialmente para atuar na campanha. Dias depois, vieram a público pagamentos que ele recebeu de Roberta Luchsinger, empresária amiga de Lulinha, o filho do presidente, e alvo da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema de descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões do INSS. Marcola afirma que os valores se referem a uma operação regular e já quitada, e essa versão precisa constar. Mas o fato político é um só: o homem que despachava na porta do gabinete presidencial acabou afastado também da campanha depois que a informação veio à tona.
Ou seja: em menos de um mês, os dois nomes que travaram um bate-boca diante de Lula saíram do centro da campanha. Um caiu depois de uma revelação. O outro caiu sem que nenhuma revelação tenha aparecido.
Ainda.
E é aqui que surge uma pergunta crucial. O afastamento de Sidônio é apenas reorganização de campanha? Ou Lula, escaldado pelo caso Marcola, está se antecipando a alguma coisa que ainda não chegou às manchetes?
Porque o pano de fundo não ajuda a acalmar ninguém. O governo atravessa o desdobramento da farra do INSS, apontada por investigadores como uma das maiores fraudes já praticadas contra aposentados neste país, com tentáculos que já alcançaram o entorno do Planalto. E segue em aberto o caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, cujas visitas registradas na Polícia Federal o governo decidiu manter sob sigilo, como esta revista já mostrou. Existe alguma conexão entre esses dossiês e a dança das cadeiras na comunicação presidencial? Infelizmente não possuo essa resposta. Ninguém fora do núcleo do poder tem.
Mas a experiência recente ensina uma coisa: neste governo, as saídas discretas costumam preceder as manchetes barulhentas.
Se for só briga interna, o tempo dirá, e a campanha seguirá seu curso com o sócio de Sidônio no leme. Se houver algo mais, as próximas semanas não vão conseguir esconder.
Guarde este artigo. Porque, se aparecer alguma coisa, a gente volta aqui.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



