RIO DE JANEIRO, 9 de outubro de 2026 — Em 2022, o Ipec disse que Paulo Martins teria 14% dos votos para o Senado no Paraná. A urna entregou 29,12%. São 15,12 pontos de diferença, mais do que o dobro do número divulgado. Quando vi esse dado, parei de olhar para ele como um caso isolado e fui buscar o resto da série.
O resto está no Observatório Eleitoral, estudo da Revista Timeline que reúne resultados divulgados no site https://observatorio.revistatimeline.com/. O método é simples: pegar a última pesquisa pública de cada instituto antes da votação, comparar com o resultado oficial, na mesma base de votos válidos, em nove disputas, de 2014 a 2026.
O resultado nas eleições presidenciais incomoda. Em 13 das 16 pesquisas analisadas, a vantagem do candidato do PT apareceu maior do que a vantagem que saiu das urnas. A diferença média foi de 4,46 pontos percentuais. Não é um tropeço. É uma direção.
Agora o outro lado da conta. As 14 estimativas para Jair Bolsonaro, em 2018 e 2022, e para Flávio Bolsonaro, em 2026, ficaram todas abaixo do resultado real, com erro médio de 3,89 pontos. Se contarmos o principal adversário do PT em todos os ciclos, são 16 estimativas abaixo da urna, média de 4,28 pontos. Errar para cima e para baixo é normal em estatística. Errar sempre para o mesmo lado é o que chama atenção.
O Datafolha aparece no centro desse desenho. Nos quatro ciclos, foi o instituto que mais subestimou o adversário do PT dentro de cada eleição: 7,55 pontos em 2014, 6,03 em 2018, 7,20 em 2022 e 5,03 em 2026. A média é de 6,45 pontos. O estudo avisa que isso compara institutos dentro de cada disputa e não é um ranking geral de acerto. Mas quem paga e quem lê a manchete merece saber disso.
Seria fácil, e preguiçoso, gritar fraude. Não vou fazer isso. O próprio estudo diz que a amostra é intencional, que os achados não provam má-fé nem influência sobre campanhas, e que não podem ser estendidos a todo o mercado de pesquisa. Há institutos que se saíram bem. A Quaest teve erro médio de 2,885 pontos na disputa presidencial de 2022 e a AtlasIntel foi a mais próxima naquele ano, com 1,985. Ou seja, dá para acertar. A pergunta é por que alguns acertam e outros repetem o mesmo desvio.
Volte ao Paraná. O Ipec colocou Álvaro Dias com 41%, e ele teve 23,94%. Deu a Sergio Moro 35%, e ele teve 33,50%. Na ordem real, Moro ficou na frente de Dias. No mesmo Senado, o Veritá errou em média 1,506 ponto por candidato, enquanto o Ipec errou 4,403. O número de um instituto não era destino. Era escolha de método.
E por que isso importa agora? Porque faltam 16 dias para o segundo turno, e cada pesquisa divulgada vira manchete, vira humor de campanha, vira argumento de convencimento do eleitor indeciso. Pesquisa que anuncia vitória confortável desmobiliza uns e embala outros. Se ela erra sempre na mesma direção, quem sai prejudicado é quem foi mal medido.
Também é preciso dizer que nem o mercado é uniforme. No Rio, a AtlasIntel divulgou em 29 de setembro Eduardo Paes com 51,1% e Douglas Ruas com 42,1% no segundo turno para o governo, com margem de 2 pontos. O eleitor precisa saber como o número foi montado antes de levá-lo a sério.
O que eu cobro é o que qualquer leitor cobraria de uma geladeira que sempre marca temperatura errada: abra o método. Que os institutos publiquem a ponderação, o perfil da amostra, o tratamento dos indecisos e a explicação do erro anterior. O Datafolha, em especial, tem uma resposta a dar, depois de quatro ciclos com a mesma assinatura.
Então fica a pergunta: no dia 25, que número você vai olhar, o da pesquisa ou o da urna? Se a diferença voltar a ter o mesmo sinal de sempre, ninguém mais poderá chamar de coincidência sem apresentar a conta.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



