O recorde que o governo não vai colocar na propaganda
153 brasileiros por dia: a fila invisível que termina embaixo da marquise
Rio de Janeiro - RJ | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (011)
Há um Brasil que existe nos comerciais de televisão e outro que existe nas calçadas. No primeiro, o país saiu do mapa da fome, a pobreza recua e o governo distribui benefícios com generosidade histórica. No segundo, 392,4 mil pessoas dormem ao relento.
O número vem do Cadastro Único para Programas Sociais, o CadÚnico, a principal base de dados do próprio governo federal. Em dezembro de 2022, último mês antes da posse de Lula, eram 198,7 mil pessoas registradas em situação de rua. Em junho de 2026, o total chegou a 392,4 mil. Um crescimento de 97,4% em três anos e meio. Na prática, a população de rua do Brasil dobrou dentro do mandato de um presidente que fez do cuidado com os mais pobres a sua marca de campanha.
E o ritmo assusta mais do que o total. Desde janeiro de 2023, o sistema registra em média 4,6 mil novas pessoas em situação de rua por mês. São mais de 150 brasileiros por dia. A cada dez minutos, aproximadamente, alguém no país cruza a linha que separa ter um endereço de não ter mais nada. Entre 2019 e 2022, essa média era de cerca de 2 mil registros mensais. O ritmo atual é mais que o dobro do verificado no governo anterior, incluindo os anos da pandemia.
O governo tem uma explicação pronta, claro. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social sustenta que parte da alta se deve ao aprimoramento do cadastramento, com capacitação de entrevistadores e fortalecimento das equipes municipais. Haveria, segundo a pasta, uma subnotificação entre 2019 e 2022 que agora estaria sendo corrigida. É o velho recurso de transformar um recorde negativo em mérito administrativo: não é que existam mais pessoas na rua, é que agora contamos melhor.
O argumento não sobrevive aos próprios dados. Se o crescimento fosse apenas a regularização de cadastros represados na pandemia, a curva teria que desacelerar com o passar dos anos, à medida que o estoque de gente não contabilizada fosse se esgotando. Aconteceu o contrário. O ritmo se manteve alto durante todo o mandato e voltou a ganhar força justamente no primeiro semestre de 2026. Questionado sobre quais estudos técnicos embasariam a tese da subnotificação, o ministério não apresentou resposta específica. E os dados não são inventados por ninguém: vêm dos municípios, coletados pelos mesmos profissionais que atuavam nas gestões anteriores.
Há ainda um detalhe que o Planalto prefere não mencionar. Em dezembro de 2023, o governo lançou com pompa o Plano Nacional Ruas Visíveis, apresentado como a grande resposta federal à crise, com investimento inicial anunciado de R$ 982 milhões. Naquele mês, o CadÚnico registrava 262,5 mil pessoas em situação de rua. Dois anos e meio e quase um bilhão de reais depois, são 130 mil pessoas a mais nas calçadas. O plano tornou as ruas visíveis, sem dúvida. Cada vez mais visíveis.
A geografia do problema também desmonta narrativas. O Norte viu os registros saltarem de 4,9 mil para 22,8 mil pessoas, alta de 367%. O Nordeste, região tratada como vitrine eleitoral do governo, cresceu 109%, passando de 29,1 mil para 61 mil pessoas cadastradas. Roraima multiplicou seus números por quase sete, pressionada pela crise migratória venezuelana, essa mesma Venezuela que parte do governo insiste em tratar com cerimônia diplomática. São Paulo, maior contingente absoluto do país, cresceu 88%.
É justo reconhecer que o fenômeno tem causas complexas. Ruptura de vínculos familiares, dependência química, saúde mental, custo de moradia, tudo isso pesa. Nenhum governo cria sozinho uma crise dessa dimensão, e nenhum a resolve por decreto. Mas é exatamente por isso que a propaganda incomoda tanto. Um governo que gasta fortunas em publicidade para celebrar a saída do mapa da fome, que anuncia recordes de transferência de renda e que trata qualquer crítica como golpismo deveria, no mínimo, ter a honestidade de encarar o indicador mais brutal de todos: o número de compatriotas que não têm onde dormir dobrou sob sua gestão.
Porque a rua não assiste ao Jornal Nacional. A rua não lê release do Planalto. Quem perdeu o emprego, perdeu a casa e hoje divide uma marquise com a família não quer saber de estatística maquiada nem de disputa de narrativa. Quer um país onde trabalhar volte a ser suficiente para ter um teto.
Se o discurso é cuidar dos mais pobres, os mais pobres estão respondendo. Estão respondendo das calçadas, aos milhares, todos os meses. A pergunta que fica para o leitor é a mesma que deveria tirar o sono de Brasília: quantos brasileiros ainda vão para a rua até alguém no governo admitir que a propaganda não paga aluguel?
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


