O Ronaldinho dos negócios ataca novamente
Da Telemar ao Careca do INSS, o sobrenome Lula da Silva atravessa duas décadas de negócios milionários sem nunca ser condenado. Coincidência ou método?
RIO DE JANEIRO, 11 de agosto de 2026 — Se eu contasse essa história sem revelar o nome do personagem, o leitor provavelmente acharia que inventei. Um monitor de zoológico, sem qualquer histórico empresarial relevante, vira sócio de uma empresa de mídia. A empresa recebe milhões de uma gigante das telecomunicações. Vinte anos depois, o mesmo nome reaparece, agora citado por um informante da Polícia Federal num dos maiores escândalos do país.
O personagem é Fábio Luís Lula da Silva. O Lulinha. Filho mais velho do presidente da República.
O primeiro capítulo: a tele e o filho do presidente
A história começa em 2005, no primeiro governo do pai. A Telemar, que depois se transformaria na Oi, investiu R$ 5 milhões na Gamecorp, empresa que tinha Lulinha entre os sócios. O caso chegou a ser levantado na CPMI dos Correios, em plena crise do mensalão, e as perguntas eram as óbvias: por que uma concessionária de telefonia, cujo negócio depende diretamente de decisões do governo federal, colocaria dinheiro na empresa do filho do presidente?
A resposta demorou quase quinze anos para ganhar contornos concretos. Em dezembro de 2019, a 69ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Mapa da Mina, foi atrás do rastro completo. A suspeita do Ministério Público Federal: o grupo Oi/Telemar teria transferido mais de R$ 132 milhões a empresas ligadas aos sócios de Lulinha, das quais cerca de R$ 82 milhões teriam ido à própria Gamecorp. Segundo o MPF, a empresa sequer tinha capacidade de prestar os serviços para os quais foi contratada, e a contratação foi feita sem cotação de preços, com valores acima do mercado.
O procurador do caso resumiu a tese da acusação de forma brutal: o maior ativo que a Oi buscava na Gamecorp era o fato de que, entre os sócios, estava o filho do então presidente da República.
É preciso registrar, que estranhamente a investigação foi arquivada em janeiro de 2022, sem condenação. A Justiça Federal de São Paulo acolheu o entendimento de que, após o STF reconhecer a parcialidade de Sergio Moro e anular provas derivadas, não restavam elementos para seguir adiante. Lulinha, portanto, nada deve à Justiça nesse caso. O arquivamento, porém, se deu pela via processual, pela contaminação das provas. As perguntas de mérito nunca foram respondidas.
Onde cada um foi parar
Vinte anos depois, vale olhar o destino de cada personagem dessa relação.
A Oi, que despejou milhões na empresa do filho do presidente, é hoje um dos maiores escombros empresariais do Brasil. Está na segunda recuperação judicial, aberta em 2023. No fim de 2025, chegou a ter a falência decretada, revertida depois pela segunda instância. Sua subsidiária Serede quebrou em dezembro de 2025, demitindo cerca de 4,8 mil trabalhadores que ficaram sem verbas rescisórias. As dívidas do grupo foram estimadas em R$ 19,7 bilhões no início de 2026, e até a venda da participação na V.tal, principal tábua de salvação, foi suspensa pela Justiça em junho.
E Lulinha? Voltou ao noticiário. Mas não pela Oi.
O segundo capítulo: o Careca, a cannabis e a Saúde
Em maio deste ano, a CNN Brasil revelou que um informante da Polícia Federal afirmou aos investigadores que Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, figura central do escândalo dos descontos ilegais em aposentadorias, pagava uma espécie de mesada a Lulinha. Em troca, segundo o relato, o filho do presidente garantiria acesso ao Ministério da Saúde e à Anvisa para viabilizar negócios da World Cannabis, empresa do Careca no mercado de cannabis medicinal.
A trilha do dinheiro apontada pela PF passa por Roberta Luchsinger, empresária amiga de Lulinha contratada pela World Cannabis, que recebeu R$ 1,5 milhão em cinco parcelas de R$ 300 mil. Em mensagens apreendidas, o Careca se referia a esse valor como destinado ao “filho do rapaz”. Os investigadores suspeitam de quem seria o rapaz. O leitor também pode suspeitar.
O caso escalou. O ministro André Mendonça, relator do inquérito das fraudes do INSS no STF, determinou a abertura de apuração na CGU sobre a influência da World Cannabis em servidores da área da saúde, e a Controladoria convocou o próprio informante para depor. Em julho, o Supremo autorizou inquéritos da PF para investigar se Lulinha cometeu tráfico de influência e corrupção.
De novo, o registro necessário: a defesa nega qualquer irregularidade, afirma que Lulinha não é alvo da apuração da CGU e que a quebra de seu sigilo não revelou nada de ilícito. Roberta Luchsinger admitiu à PF que apresentou Lulinha ao Careca, mas negou repasses ao filho do presidente. Ninguém foi condenado por nada.
O padrão que insiste em aparecer
Não se trata de decretar culpa, tarefa que cabe à Justiça e apenas a ela. Trata-se de constatar um padrão que já dura mais de duas décadas: muda o negócio, muda o governo, muda o escândalo, mas o nome de Lulinha reaparece. Nos anos 2000, era telefonia. Agora, é cannabis medicinal e a porta do Ministério da Saúde. O denominador comum nunca foi um produto, uma tecnologia ou uma expertise. Foi sempre o sobrenome.
Lula tem para tudo isso uma explicação carinhosa. Já comparou o sucesso empresarial do filho ao talento de Ronaldinho: gente que simplesmente nasce boa no que faz. Pode ser. Craques existem.
Mas convenhamos: Ronaldinho fazia gol em qualquer time, em qualquer país, contra qualquer adversário. O talento de Lulinha, curiosamente, só parece render quando o pai está no Palácio do Planalto.
Você concorda com o presidente? Ou acredita no que os fatos, vinte anos depois, insistem em sugerir?
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro




O “Lulinha das trambicagens” ataca novamente