Início da série “ESTRATÉGIA SENADO” com a missão Sergipe.
RIO DE JANEIRO, 20 de agosto de 2026 — Pense no eleitor sergipano de 2018. Ele não conhecia quase nada daquele delegado de fala mansa que nunca havia disputado uma eleição na vida. Comprou uma ideia, não um currículo. Achou que estava votando contra o velho jeito de fazer política.
Um estranho ao sistema chegou ao Senado.
Oito anos depois, esse mesmo eleitor precisa decidir de novo. E a pergunta que ele carrega é curta e desconfortável: qual Alessandro Vieira está pedindo o meu voto agora?
Oito semanas
No primeiro turno de 2018, votou em Marina Silva. No segundo, declarou voto em Jair Bolsonaro. A justificativa era romper o ciclo do PT e fortalecer o combate à corrupção.
Dois meses depois da posse, já estava arrependido. Ele mesmo conta isso hoje, sem constrangimento nenhum, como se fosse credencial.
Guarde o número. Oito semanas foi todo o tempo que a convicção mais importante da vida política dele levou para virar pó. Se o critério de 2018 se desmanchou nesse prazo, que critério era aquele? E por que alguém deveria acreditar que os critérios de 2026 são feitos de material mais resistente?
O carrasco
Em 2021, na CPI da Covid, ele virou um dos algozes mais eficientes do presidente Bolsonaro, em quem havia votado. Não foi um recuo discreto nem uma revisão silenciosa de posição. Foi a inversão completa de papel, ao vivo, em rede nacional, com holofote e microfone.
Foi ali que nasceu a marca registrada. Nem Lula, nem Bolsonaro. Terceira via. O país cansado dos dois extremos, e ele oferecendo a saída moral para quem não queria sujar as mãos com nenhum dos dois.
Durou dezoito meses.
O voto que ele não consegue apagar
Em 26 de outubro de 2022, a quatro dias do segundo turno, o senador que havia construído toda a sua identidade sobre a recusa aos dois polos escreveu nas redes que os candidatos continuavam não o representando, que rejeitava a omissão e que era preciso escolher.
Escolheu Lula.
Os critérios anunciados foram respeito democrático, resgate da educação pública e preservação do meio ambiente. E ele admitiu, no mesmo texto, que não via combate à corrupção no projeto de nenhum dos dois.
Leia de novo. A bandeira que o elegeu, a única coisa que o eleitor de 2018 pensava estar comprando, foi expressamente riscada da decisão mais importante do ciclo. O homem que passara 2021 associando o PT a um sistema de corrupção de grande escala entregou o voto ao PT quando a conta chegou. E ainda pediu que ninguém confundisse aquilo com esperança.
Naquele mesmo ano ele tentara o governo de Sergipe e ficara em terceiro, com 10,88%. O estado já havia dado seu recado.
Quatro legendas, um mandato
Rede em 2018. Cidadania depois. PSDB em 2022. MDB desde 2023, na articulação ligada a Simone Tebet, ministra de Lula.
Trocar de sigla, sozinho, explica pouco. Somado à troca de candidato a presidente e de coalizão, deixa de ser detalhe biográfico e vira método.
Qual é o eixo permanente que atravessa quatro partidos, três candidatos presidenciais e dois governos adversários?
Vota com quem governa
No governo Bolsonaro, apoiou a reforma da Previdência e o Marco do Saneamento.
No governo Lula, foi relator da taxação de fundos exclusivos e offshores, uma das maiores vitórias arrecadatórias de Fernando Haddad, e ajudou a fazer avançar a reforma tributária que transformará nosso país com a maior carga tributária do Planeta.
Não existe pauta liberal nem pauta petista nessa sequência. Existe uma constante: quem está com a caneta na mão. A retórica é sempre de independência, mas o placar mostra alguém que costuma estar do lado que ganha a votação.
A digital dele está no PL 2630
Aqui está o item que o discurso atual precisa esconder.
O projeto que ficou conhecido como PL das Fake News, a proposta mais abrangente de regulação de plataformas já apresentada no país, nasceu das mãos dele em 2020. Ele sempre rejeitou o rótulo de censura. O rótulo é discutível. A autoria não é.
O mesmo senador que hoje ergue a voz contra o controle estatal do que se fala na internet é o autor da peça que o Congresso passou anos tentando aprovar. Nenhum discurso de 2026 apaga um número de protocolo de 2020.
O impeachment que nunca chega
Ele repete que defende o impeachment de Alexandre de Moraes desde 2019. Repete há sete anos, como quem exibe uma medalha.
Em agosto do ano passado, quando o assunto voltou de fato ao centro do tabuleiro, a frase que saiu da boca dele foi outra: agora não é o momento.
Nunca é o momento. Bandeira levantada com alarde na tribuna e recolhida com discrição sempre que ela custa alguma coisa.
Em abril deste ano, seu relatório na CPI do Crime Organizado pediu o indiciamento de Toffoli, Moraes, Gilmar Mendes e do procurador-geral Paulo Gonet. Foi rejeitado por seis votos a quatro. A CPI do crime organizado terminou sem texto final, sem um único chefe de facção indiciado, sem entregar nada ao país. Colegas apontaram no plenário a ausência, na lista, dos nomes ligados ao caso Banco Master.
Sobrou a manchete. Manchete, em ano de reeleição, tem cotação.
E a anistia?
O eleitor de direita que hoje talvez se engane com o senador por causa de Moraes talvez não saiba de uma coisa simples: ele nunca aderiu à anistia ampla e irrestrita do 8 de Janeiro.
Em Sergipe, essa distância tem nome, sobrenome e data. Em 6 de agosto, Flávio Bolsonaro anunciou apoio a Rodrigo Valadares e ao Coronel Rocha, ambos do PL, para as duas vagas do estado no Senado. Valadares é justamente o relator do PL da Anistia na CCJ da Câmara.
De um lado, os dois nomes que carregam a pauta nas costas, principalmente Valadares. Do outro, o senador que ficou de fora da lista de Flávio Bolsonaro e que agora ilude, ou tenta, iludir eleitores da direita.
O palanque que ele não larga
E tem o detalhe que desmonta o resto.
Em fevereiro, o governador Fábio Mitidieri o cortou da chapa majoritária, alegando falta de harmonia e alinhamento. Mitidieri é o palanque de Lula em Sergipe. O PT abriu mão de candidatura própria ao governo, embarcou na aliança e colocou o senador Rogério Carvalho na chapa.
Cortado, Alessandro não rompeu. Anteontem, no primeiro ato da campanha, repetiu que segue apoiando a reeleição de Mitidieri.
Some as duas declarações da mesma semana. Voto em Caiado para presidente, palanque do governador de Lula em Sergipe. Ele oferece ao eleitor conservador o discurso contra o Supremo e entrega ao governismo estadual o apoio que interessa à urna dele.
A próxima encruzilhada
Bolsonaro em 2018. Terceira via em 2021. Lula em 2022. Caiado em 2026. Rede, Cidadania, PSDB, MDB. E, em toda estação da viagem, a mesma etiqueta colada na mala: independência.
Chamar isso de evolução exige uma boa vontade que a aritmética não sustenta. Três candidatos presidenciais, quatro partidos, dois governos, uma promessa reciclada. O eleitor não está diante de um homem que mudou de ideia. Está diante de alguém que muda quando a paisagem muda, e sempre a tempo de não ficar sozinho.
O sergipano que apostou num desconhecido em 2018 tem direito de perguntar o que sobrou daquela aposta, e a uma resposta que não seja mais uma placa apontando para o horizonte.
Quais posições de hoje são convicção? E quais duram até a próxima encruzilhada?
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




A pandemia revelou vários camaleões, por fora discurso de princípios e valores de direita, enquanto por dentro aquela alma esquerdista que almejava cargos e vilipendiar o erário público. A CPI da COVID revelou a verdadeira face de vários desses abutres.
Que o povo sergipano não esqueça o tamanho da canalhice desse esquerdista de alma.
Leila do vôlei (DF) é outra que será expurgada.
Que venham mais posts como este expondo senadores traíras.