Sexto artigo da série “ESTRATÉGIA SENADO” com a missão Roraima.
O teto de gastos para uma campanha ao Senado em Roraima é de cerca de R$ 3,176 milhões. Guarde esse número, porque ele explica tudo o que vem a seguir.
Levantei os dados no sistema de prestação de contas do TSE. Até 27 de agosto, o PL havia repassado R$ 5,4 milhões aos seus candidatos no estado. Desse total, R$ 3,1 milhões foram para um único nome: Nicoletti, candidato ao Senado. A receita total declarada dele é de R$ 3.115.500. Praticamente 98% de tudo o que a lei permite que ele gaste na campanha inteira.
O outro candidato do PL ao Senado por Roraima, na mesma chapa, disputando as mesmas duas vagas, aparece com R$ 500 mil. Cerca de 16% do teto.
Seis vezes menos. R$ 2,6 milhões de diferença entre dois homens que pedem voto para o mesmo cargo, pelo mesmo partido, no mesmo estado, no mesmo dia.
O segundo se chama Hélio Lopes e você provavelmente o conhece por Hélio Negão ou Hélio Bolsonaro.
Quem ficou com os R$ 500 mil
Hélio Fernando Barbosa Lopes é filho de uma empregada doméstica e de um pedreiro, nascido em Queimados, na Baixada Fluminense. Entrou no Exército aos 22 anos e serviu até 2019. Foi lá que conheceu Jair Bolsonaro, a quem chama de “o irmão que a vida me deu”.
Concorreu pela primeira vez em 2004, com apoio direto de Bolsonaro. Em 2018, foi um dos primeiros a entrar no quarto do hospital em Juiz de Fora depois da facada, uma das poucas pessoas autorizadas fora da família, como ele mesmo contou. Naquele ano adotou o nome de urna Hélio Bolsonaro e foi eleito o deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, com 345.234 votos. A maior votação já obtida por um homem negro na história do estado e do país. Mais da metade do dinheiro daquela campanha veio do comitê do próprio Bolsonaro.
Em dezembro de 2019, quando o PSL rachou, Hélio pagou o preço da lealdade. Foi um dos 12 deputados bolsonaristas suspensos por um ano de qualquer função partidária, a pedido da direção de Luciano Bivar. Perdeu liderança, perdeu voz na bancada, perdeu até o direito de participar da escolha do líder. Depois seguiu Bolsonaro para o PL. Em 2021, quando perguntaram para onde ele iria, respondeu com uma frase que virou marca: “Meu partido é o Bolsonaro.”
Quem ficou com os R$ 3,1 milhões
Naquele mesmo racha, Nicoletti estava do outro lado da trincheira.
Em outubro de 2019 votou pela permanência do delegado Waldir na liderança do PSL, contra a substituição por Eduardo Bolsonaro, e perdeu o cargo de vice-líder do governo. Depois foi um dos que assinaram a lista que levou Joice Hasselmann à liderança da bancada, movimento que só se tornou aritmeticamente possível porque Hélio Lopes e outros onze haviam sido suspensos.
Em junho de 2020 protocolou o pedido de impeachment de Antonio Denarium, o governador que deixara o PSL justamente para acompanhar Bolsonaro. Em setembro daquele ano, disputando a Prefeitura de Boa Vista, teve o apoio desmentido em público pelo próprio presidente: quem disser que apoio está mentindo.
Nicoletti sempre rejeitou a leitura de rompimento. Diz que a briga era com Eduardo e não com o pai, lembra que votava 99% com o governo, que defendeu o retorno de Bolsonaro ao PSL e que apoiou Felipe Francischini para tirar Joice da liderança. Ao assinar a ficha do PL, em 5 de março de 2026, afirmou que “nunca” abandonou Bolsonaro.
Cinco meses depois da assinatura, recebeu quase o teto.
O argumento que o PL vai usar
Existe uma defesa razoável e seria desonesto omiti-la.
O PL ficou com a maior fatia do Fundo Eleitoral deste ano, R$ 881,7 milhões, e deu ao Senado peso próprio na divisão entre os estados. Concentrar no cabeça de chapa é estratégia declarada, não desvio. Nicoletti foi eleito deputado federal por Roraima em 2018 e reeleito em 2022. Conhece o estado, tem estrutura montada, tem voto guardado. Hélio Lopes é do Rio de Janeiro e transferiu o domicílio eleitoral para Roraima a pouco, numa estratégia clara de ocupação de espaços no Senado. Foi assim também com Carlos Bolsonaro em Santa Catarina.
Tudo isso é verdade. E ainda assim não sustenta seis vezes mais.
Mas é exatamente por isso que a largada deveria ter sido equilibrada. Havia razões para investir mais no candidato local, como também havia razões para investir mais em quem sempre esteve ao lado de Bolsonaro. O que não havia era razão para transformar essa diferença de contexto numa diferença de R$ 2,6 milhões. Bancar um candidato até o teto e deixar o outro com 16% não é calibrar aposta.
Ainda dá tempo
A prestação é parcial. Os números são do dia 27 de agosto, a maior parte do Fundo Eleitoral costuma ser liberada nas últimas semanas e o quadro pode mudar até a eleição. O PL ainda tem prazo para corrigir a mão, e é isso que eu espero que aconteça.
Mas correção posterior não apaga a largada. As primeiras semanas são fundamentais e é quando se contrata equipe, se produz material, se ocupa a rua e se constrói o nome na cabeça do eleitor. Dinheiro que chega em setembro não compra o agosto que passou.
E a foto de agora diz o que diz, com uma ironia difícil de desfazer. Quem foi punido pelo PSL por não largar Bolsonaro está com R$ 500 mil. Quem votou contra o filho dele, pediu o impeachment do aliado dele, teve o apoio negado por ele em praça pública e só chegou ao partido em março deste ano está com R$ 3,1 milhões.
Nada disso é ilegal. Repasse partidário é decisão política e nenhum partido deve satisfação sobre quem prefere.
O dinheiro, porém, é público. E há uma pergunta que o PL de Roraima deveria responder: se lealdade é um critério, por que quem é leal ficou com o troco?
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Há uma outra candidata ao Senado por Roraima que talvez merecesse a vaga. Regina Tio Ivo no partido Novo. Porque pela última pesquisa, o cenário é sombrio. Teresa Surita MDB e esse Nicoleti lideram a corrida. Hélio aparece com 5%. Os 4 primeiros colocados são de esquerda. Afinal, pelo visto, Nicoletti é sabor direita.
Helio acompanhou Jair aos EUA, quando Trump caiu na risada ao ouvir Bolsonaro dizer que ele ou o Brasil (não me recordo dos detalhes) também tinham um Obama. Excelente artigo. Só espero que, com a vitória de Flávio e a escolha de 4 ministros para o STF, os Bolsonaros criem de vez um partido próprio e saiam debaixo desse telhado de vidro, que ajuda os opositores com ataques pois, infelizmente, PL é Valdemar.