RIO DE JANEIRO, 20 de setembro de 2026 — Você já viu essa cena. O celular vibra no meio do turno. Bônus liberado. Giro grátis. Aquele último palpite que vai virar o mês. O sujeito aposta o troco do almoço, perde, aposta de novo pra recuperar. Em três meses, a conta de luz atrasa. Em seis, a esposa descobre. Em um ano, a casa foi embora.
Isso não caiu do céu. Foi construído.
O governo Lula abriu a torneira de vez com a Lei 14.790, sancionada no apagar das luzes de 2023, que finalmente regulamentou a exploração das apostas de quota fixa no país. A lei criou o regime de arrecadação sobre o GGR e alterou a Lei 13.756/2018, que havia criado a modalidade sem regulamentar sua exploração. Resultado prático: 187 casas de apostas legalizadas e um mercado que, segundo estudo do Comsefaz, movimentou R$ 350,97 bilhões.
E o dinheiro saiu de onde? Do bolso mais raso. Em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para plataformas de apostas, a maioria chefes de família. Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo aponta as bets como o principal fator de endividamento dos brasileiros hoje, cinco vezes mais que cartão de crédito e empréstimos.
Agora vem a parte que ninguém comenta. Os mesmos que sancionaram a festa chegaram depois com cara de santo. Em 2026, o líder do PT na Câmara protocolou o PL 1808, que propõe acabar com as bets no país e revoga justamente os dispositivos das leis que o próprio governo ajudou a estruturar. Outro deputado do partido apresentou o PL 2926/2026, restringindo a publicidade do setor.
Quem abriu a torneira agora quer vender o pano pra secar a água derramada.
É a mesma engenharia que aparece no debate sobre liberação das drogas. Primeiro se cria a dependência. Depois se vende a cura, com imposto embutido. Porque o problema permanente é um ativo político. Cidadão quebrado precisa de salvador. Cidadão acordado, não.
Não sou ingênuo. As bets existem e não vão desaparecer por decreto. Proibir no grito empurra tudo para o mercado paralelo e entrega o lucro ao crime organizado, que agradece a entrega em domicílio.
O caminho já foi testado neste país e deu certo. Foi com o cigarro. Advertência na embalagem, proibição de propaganda, restrição de idade, campanha permanente de conscientização. Sem proibicionismo histérico, sem hipocrisia. O número de fumantes despencou. No Senado, o PL 2.470/2026 caminha nessa direção, ampliando restrições à publicidade e ao patrocínio, criando classificação de risco e vedando a exploração de pessoas em situação de desemprego, endividamento, luto ou sofrimento emocional para captar apostadores. O texto foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia em 2 de setembro.
Só que regra boa não apaga a pergunta incômoda: por que a regra só aparece depois que milhões de famílias já quebraram?
Enquanto isso, a contribuição sobre o GGR (Gross Gaming Revenue, ou receita bruta de jogo) sobe de 13% para 14% em 2027 e 15% a partir de 2028. O Estado engorda na entrada, quando o trabalhador aposta, e engorda na saída, quando promete tratar o viciado que ele mesmo fabricou.
Se liga. Não existe coincidência quando o padrão se repete. Existe método.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Só ouvi verdades...
Como sempre: parabéns e obrigado pelo trabalho de esclarecer os "desacordados".