O voto que trai a fé: a pesquisa que deveria tirar o sono de todo católico
Enquanto evangélicos fecham com a direita, católicos entregam a eleição para quem defende tudo o que a Igreja condena
RIO DE JANEIRO, 09 de julho de 2026 - Tem número que incomoda. E tem número que dói.
A pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada no fim de junho trouxe um recorte que deveria provocar um exame de consciência em milhões de brasileiros. Numa simulação de segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente vence entre os eleitores católicos por 53% a 38%. Entre os evangélicos, o cenário se inverte de forma brutal: Flávio chega a 60% e Lula fica com apenas 32%.
Leia de novo. Devagar.
A mesma fé cristã. O mesmo Deus. A mesma defesa da vida e da família nos textos sagrados. E dois comportamentos eleitorais que parecem vir de países diferentes.
Antes que alguém grite “pesquisa comprada”, vamos aos fatos. Sou o primeiro a desconfiar de instituto de pesquisa, e o histórico recente do setor justifica qualquer ceticismo. Mas o levantamento existe, foi feito por telefone com 2.009 eleitores entre 26 e 28 de junho, tem margem de erro de dois pontos e está registrado no TSE sob o número BR-08521/2026. No primeiro turno estimulado, o recorte religioso segue a mesma lógica: Lula tem 48% entre católicos contra 29% de Flávio, e entre evangélicos o senador faz 48% contra 25% do petista. Ou seja, não é um ponto fora da curva. É um padrão.
E é aqui que mora o paradoxo.
O eleitor católico brasileiro está, em sua maioria, apoiando um projeto político que defende a descriminalização do aborto, que empurra a ideologia de gênero para dentro das escolas e que flerta abertamente com a liberação das drogas. Pautas que a Igreja Católica condena de forma explícita, reiterada e documentada há décadas. O Catecismo não deixa margem para interpretação criativa: a vida é inviolável desde a concepção. A família é célula fundamental da sociedade. A dignidade humana não se negocia.
Então como explicar os 53%?
Uma hipótese incômoda passa pela Teologia da Libertação. Aquela corrente que, a partir dos anos 1970, transformou parte do clero brasileiro em militância política com batina. As Comunidades Eclesiais de Base foram berço de formação de quadros do PT, e essa herança nunca foi desfeita. Enquanto boa parte dos padres trocava o Evangelho pela luta de classes, as igrejas evangélicas cresciam pregando prosperidade, família e responsabilidade individual. O resultado eleitoral que vemos hoje é, em parte, a colheita dessas duas sementes plantadas há meio século.
Os dados da própria Nexus reforçam essa leitura. Na segmentação ideológica do instituto, 35% dos evangélicos aparecem como bolsonaristas convictos, contra apenas 13% de lulistas convictos. Entre católicos, o quadro é de divisão: 27% de lulistas convictos e 24% de bolsonaristas convictos. O rebanho católico está rachado ao meio. O evangélico, não.
E isso importa. Muito.
O Censo de 2022 mostrou que os católicos ainda são o maior grupo religioso do país, com pouco mais da metade da população, enquanto os evangélicos passam dos 25% e seguem crescendo. Traduzindo para a aritmética eleitoral: quem vencer o voto católico tem grande possibilidade de vencer a eleição. A esquerda entendeu isso há muito tempo. A direita, aparentemente, ainda não.
Há também outra explicação possível, menos ideológica e mais sociológica. O catolicismo brasileiro virou, para milhões de pessoas, uma identidade cultural herdada, não uma prática de fé. O católico de batismo e casamento, que pisa na igreja duas vezes por ano, vota olhando para a televisão, não para o Catecismo. Já o evangélico frequenta o culto toda semana, ouve o pastor, vive a fé como comunidade ativa. A diferença de engajamento religioso vira diferença de comportamento nas urnas.
Seja qual for a explicação, o dado está na mesa. E ele exige uma pergunta direta, sem rodeios, ao leitor católico desta revista: o seu voto está alinhado com a sua fé?
Não estou dizendo em quem votar. Estou dizendo para você conferir se existe coerência entre o que você professa no domingo e o que você digita na urna. A Igreja sempre foi clara na defesa da vida, da família e da dignidade humana desde a concepção. Se o candidato que você pretende apoiar milita contra tudo isso, o problema não é da pesquisa. O problema é seu.
Reze. Examine a consciência. Estude as propostas. E vote de acordo com os seus princípios e com os princípios da sua Igreja.
Porque em 2026, mais uma vez, a eleição não vai ser decidida nos debates nem nos palanques. Vai ser decidida na consciência de cada cristão diante da urna.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



Realmente é muito incoerente o pensamento católico. O seu argumento é bastante convincente... o católico pisa na igraja talvez menos do que duas vezes ao ano; não adquire espírito de comunidade religiosa.
Esses são católicos de ibge e também hereges da libertação