Ortega enterrou as eleições. E ninguém aqui se assustou?
Chama-se Nicarágua. Prenderam a oposição, calaram a Igreja e acabaram com o voto. No Brasil, o roteiro só mudou de sotaque
RIO DE JANEIRO, 21 de julho de 2026 — Daniel Ortega cansou de fingir.
No domingo, diante de milhares de apoiadores reunidos em Manágua para celebrar os 47 anos da Revolução Sandinista, o ditador da Nicarágua anunciou, sem meias palavras, que o país não terá mais eleições. “Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e o poder”, disse, referindo-se à oposição, que ele acusa de servir aos Estados Unidos.
Não é uma ameaça velada. É um plano de governo.
O homem que está no comando desde 2007 acabou de sepultar a última encenação democrática que ainda restava. E fez isso com a naturalidade de quem comenta o tempo, ao lado da mulher, Rosário Murillo, hoje elevada ao cargo de “copresidenta” por uma reforma constitucional feita sob medida.
Para chegar até aqui, Ortega seguiu um roteiro conhecido. Primeiro vieram os opositores: presos, exilados, alguns até despojados da própria nacionalidade. Depois, a Igreja: padres e bispos expulsos, entidades religiosas fechadas, fiéis vigiados. Em 2018, quando o povo foi às ruas, o regime respondeu com mais de 300 mortos. Hoje, o casal controla o Judiciário, as Forças Armadas e o Parlamento. Uma ditadura de família, sem pudor.
Isso te lembra alguma coisa?
Antes que alguém diga que é longe demais, um detalhe incômodo: Ortega não é um ponto fora da curva. Ele pertence à mesma família ideológica que governa boa parte da América Latina, a mesma que, no Brasil, costuma tratar regimes assim com uma delicadeza que jamais dispensa aos adversários de direita. Quando a ditadura é de esquerda, o crime vira “processo” e o tirano vira “companheiro em dificuldades”.
E aqui dentro, como estamos?
O Brasil trilha, em ritmo mais lento e com melhor maquiagem, um caminho que rima com o da Nicarágua. A diferença está no método. Lá, acabaram com as urnas. Aqui, mantiveram as urnas e foram tirando do jogo quem incomoda.
O maior nome da oposição foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e 3 meses de prisão, por uma suposta tentativa de golpe juridicamente frágil e politicamente conveniente. Está inelegível desde 2023. Cumpre pena em prisão domiciliar. E, por decisão do ministro Alexandre de Moraes, está proibido de participar de atos político-eleitorais e de divulgar esse tipo de manifestação até o fim das eleições de 2026. Ou seja: silenciado justamente no ano em que o país vai às urnas.
Repare no desenho. Não foi preciso cancelar a eleição. Bastou remover o principal adversário antes do apito inicial.
Quando um tribunal, e não o eleitor, decide quem pode ou não disputar o poder, a democracia não cai com estrondo. Ela sai discretamente pela porta dos fundos, enquanto boa parte da imprensa segura a porta e pede silêncio.
Vale lembrar que nem tudo foi unânime. No próprio julgamento, o ministro Luiz Fux votou pela anulação do processo, por entender que o STF sequer era o foro competente para julgar o caso. Guarde esse detalhe. Ele diz muito.
A pergunta que fica não é confortável, mas é necessária. O que separa a Nicarágua de hoje do Brasil de amanhã? Ortega precisou de quase duas décadas e de muita truculência para chegar ao ponto de dizer, em voz alta, que acabou com o voto. Que aqui jamais se chegue a esse ponto. Mas democracia não se defende com torcida. Defende-se com vigilância.
Acorde. O que você vê acontecendo em Manágua não é um filme estrangeiro. É um alerta. E alertas existem para serem levados a sério antes, e não depois.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, D.H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Com essa declaração, o criminoso e ditador Ortega "convocou" Donald Trump a ir buscá-lo para fazer companhia ao Maduro. Assim seja, que não demore !!!!!!!
O Brasil está só um passo atrás da Nicarágua!! E ninguém faz nada!!!