Pequenas salas de aula vermelhas
Relatório expõe programa do Partido Comunista Chinês em escolas dos EUA. No Rio, o mandarim já virou lei municipal e o patrocínio veio de uma estatal chinesa
RIO DE JANEIRO, 18 de agosto de 2026 — Imagine a cena. Uma mãe em Tacoma, no estado de Washington, assina um papel autorizando a filha de 16 anos a participar de um intercâmbio cultural. Passagem paga, hospedagem paga, roteiro pronto. A menina volta encantada, com fotos, com histórias, com um vocabulário novo. A mãe acha que comprou uma viagem. Segundo um relatório publicado esta semana, ela comprou outra coisa.
O documento se chama “Pequenas Salas de Aula Vermelhas” e foi produzido pela organização americana Defending Education, uma entidade de advocacy que monitora conteúdo escolar nos Estados Unidos. O levantamento identificou o programa de bolsas Young Envoys Scholarship em pelo menos 83 universidades e 26 escolas de ensino fundamental e médio, espalhadas por 30 estados americanos.
O detalhe que faz o estômago revirar não está no número. Está em quem supervisiona o programa.
A entidade responsável é a Associação Chinesa de Educação para Intercâmbio Internacional, a Ceaie. E não é preciso teoria da conspiração para saber o que ela é. Basta ler o site dela em chinês, onde a associação declara ser orientada pelo marxismo-leninismo e pelo pensamento de Xi Jinping, e assume o objetivo de aderir sempre à liderança do Partido e integrar o trabalho do Partido a todo o processo de operação da entidade. Está escrito. Por eles. No estatuto deles.
A Ceaie ocupou o espaço deixado pelos Institutos Confúcio, que começaram a sofrer restrições do Congresso americano em 2021. Mudou o nome na porta. Não mudou quem assina o cheque.
E aqui, professor? Aqui está tudo bem?
Sou professor da rede pública há mais de duas décadas. Então quando leio um relatório desses, minha primeira reação não é olhar para os Estados Unidos. É olhar para a minha rua.
Em 6 de janeiro deste ano, o prefeito Eduardo Paes sancionou a Lei 9.246/2026, que institui o Programa Municipal de Mandarim e Cultura Chinesa no Rio de Janeiro. A lei nasceu do Projeto de Lei 1.031/2025, de autoria da vereadora Luciana Novaes, do PT, e prevê aulas do idioma e difusão de história, filosofia, arte, música e culinária chinesas em escolas, bibliotecas e centros culturais. Presencial, híbrido ou digital. Custeado pelo orçamento municipal.
Cinco meses depois, em 9 de junho, foi publicada a Lei estadual 11.216/26, que incentiva o mandarim como itinerário formativo na rede estadual e autoriza o Executivo a firmar convênios com institutos de ensino, centros culturais e órgãos de cooperação internacional. Assinaram o projeto as deputadas Tia Ju, do Republicanos, e Dani Monteiro, do PSOL.
Em Maricá, o programa já virou realidade. O Campus de Educação Pública Transformadora Leonel de Moura Brizola, em Itaipuaçu, inaugurou em setembro de 2025 o Programa Escola Trilíngue, com português, inglês e mandarim. Na cerimônia estavam o cônsul-geral interino da China no Rio, Wang Haitao, e representantes do Instituto Confúcio da PUC-Rio, que entregaram livros à escola. A meta anunciada pela Secretaria de Educação é levar o mandarim a toda a rede municipal.
O Instituto Confúcio não é uma escola de idiomas como as outras. Criado pela China em 2004, ele não abre sede própria: instala-se dentro da universidade parceira, que cede o espaço, enquanto Pequim entra com professores, material didático e dinheiro. Até 2020 a rede era comandada pelo Hanban, órgão ligado ao Ministério da Educação chinês, e depois passou a uma fundação de fachada civil, mudança que os críticos consideram cosmética. Dezenas de unidades foram fechadas nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa desde 2019, sob acusação de autocensura em temas como Taiwan, Tibete e Tiananmen. A rede nega e diz fazer apenas cooperação linguística. No Rio, os institutos funcionam na PUC-Rio e na UFF.
E os livros deste instituto são entregues por quem, exatamente? Escritos por quem? Revisados por qual conselho pedagógico brasileiro? Ninguém perguntou. Eu estou perguntando.
Que fique claro, porque a má-fé alheia é rápida: não sou contra ensinar mandarim. Sou professor de educação tecnológica, defendo idioma, defendo intercâmbio, defendo que o aluno da rede pública tenha as mesmas ferramentas do aluno de escola particular. O problema nunca foi a língua. O problema é o currículo que vem de carona com ela, e o silêncio de quem deveria auditar esse currículo antes de ele entrar na sala.
O mesmo roteiro, em escalas diferentes
Na lavoura, a conta já está feita. Em 2025 o Brasil faturou 100 bilhões de dólares com o mercado chinês, mais do que com qualquer outro país. Entre janeiro e maio de 2026, 70% da soja embarcada foi para lá. Parece força. Só que a Embrapa alerta há anos, e Pequim não esconde: existe um plano chinês para reduzir essa dependência, com genética própria, logística na África e substituição de proteína vegetal. O relatório China’s Food Future, da consultoria Systemiq, projeta queda de cerca de 25% nas importações chinesas de soja até 2030.
Traduzindo: eles planejam sair. Nós planejamos o quê?
Na indústria, o retrato é mais cru. Em dezembro de 2024, a fiscalização encontrou no canteiro da fábrica da BYD em Camaçari trabalhadores chineses dormindo em camas sem colchão, com um banheiro para 31 pessoas e jornadas de no mínimo dez horas sem folga. Os auditores apontaram passaportes retidos e indícios de fraude na documentação migratória. Foram 163 resgatados de uma das terceirizadas. O Ministério Público do Trabalho pediu 257 milhões de reais por dano moral coletivo e fechou acordo de 40 milhões em janeiro. Em 6 de abril de 2026, a BYD entrou na lista suja do trabalho escravo. A empresa nega as acusações.
Essa é a fábrica que foi vendida ao país como o futuro da mobilidade limpa.
Na soberania, o desenho fecha. Entre 2007 e 2024, o investimento produtivo chinês no Brasil somou 77,5 bilhões de dólares, com cerca de 45% concentrados em energia. Em maio de 2025, na visita a Pequim, o governo Lula assinou 36 acordos, incluindo um memorando entre a Casa Civil e a comissão de planejamento chinesa que busca sinergia entre o PAC, a Nova Indústria Brasil e a Rota da Seda. Formalmente, o Brasil nunca aderiu à Nova Rota da Seda. Na prática, assinou o mapa e chamou de outro nome.
O que me tira o sono
Não é a China. A China faz o que qualquer potência faz: defende os próprios interesses com método, paciência e dinheiro.
O que me tira o sono é a nossa parte. É a docilidade. É um país que entrega o porto, entrega a energia, entrega a soja, entrega o canteiro de obras e agora entrega o quadro-negro, sem exigir reciprocidade, sem auditar material didático, sem uma única audiência pública séria sobre quem forma o professor que vai ensinar aquela língua.
Volto para Itaipuaçu. Tem uma criança lá que hoje sabe dizer bom dia em mandarim, e isso é bonito. Ela merece o mundo inteiro. Mas ela também merece um Estado adulto o bastante para perguntar quem escreveu a cartilha antes de colocá-la na mochila dela.
Nos Estados Unidos, precisaram de um relatório para descobrir. Aqui, está tudo no Diário Oficial. Publicado, sancionado, em vigor. E ninguém leu.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



