Pesquisa eleitoral ou fábrica de opiniões?
“Anti-Lula” de um lado, “Anti-Bolsonaro e sua família” do outro: a assimetria documentada nos relatórios oficiais
RIO DE JANEIRO, 14 de julho de 2026 - Há uma diferença essencial entre medir a temperatura de um doente e escolher onde encostar o termômetro. No primeiro caso, o instrumento serve à verdade. No segundo, a verdade serve ao instrumento. A nova rodada da pesquisa BTG/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, oferece um caso exemplar para examinar essa distinção, porque o problema dela não está nos números que estampam as manchetes. Está nas perguntas que os produzem.
Os números, aliás, são conhecidos. Lula aparece com 40% no primeiro turno estimulado, Flávio Bolsonaro com 34%. No segundo turno, 47% a 44%, empate técnico dentro da margem de erro. A pesquisa ouviu 2.003 eleitores por telefone entre 10 e 12 de julho e está registrada no TSE sob o número BR-07981/2026. Até aqui, rotina. O que merece escrutínio começa quando se abre o relatório e se lê o questionário.
Uma pergunta com dois pesos
Para medir a polarização do eleitorado, a Nexus pede que o entrevistado se posicione, numa escala de 0 a 10, diante de duas afirmações. A primeira: “Sou Anti-Lula”. A segunda: “Sou Anti-Bolsonaro (e sua família)”.
Leia de novo, com calma. De um lado, um indivíduo. Do outro, um indivíduo acrescido de todo o seu clã: a esposa, os filhos senadores e deputados, o sobrenome inteiro. A assimetria não é detalhe de redação. É ela que define quem entra em cada um dos seis grupos da escala de polarização do instituto, os tais “lulistas convictos” e “bolsonaristas convictos” que depois viram análise, manchete e narrativa sobre qual campo tem mais capacidade de expansão.
Rejeitar Eduardo Bolsonaro não é o mesmo que rejeitar Flávio. Rejeitar Michelle não é o mesmo que rejeitar Jair. Ao agregar a família inteira numa única afirmação, a pergunta amplia artificialmente o universo de motivos que um eleitor pode ter para se declarar “anti”. Basta antipatia por um único membro para inflar o cluster antibolsonarista. Do lado petista, a régua é outra: o eleitor precisa rejeitar Lula, e apenas Lula. Janja não entra na conta. Nenhum dirigente do PT entra na conta. Se o objetivo fosse simetria, a alternativa correta seria “Sou Anti-Lula (e o PT)” contra “Sou Anti-Flávio (e o PL)”. Qualquer estatístico de primeiro ano reconhece o problema: quando as categorias de comparação têm tamanhos diferentes por construção, a comparação já nasce comprometida.
A lista que não para quieta
O segundo ponto é menos vistoso, mas igualmente relevante para quem acompanha a série histórica. A cada rodada, a composição da lista de candidatos apresentada ao eleitor muda. Na rodada de junho, o próprio instituto testou cenários com e sem Aécio Neves, Augusto Cury e Cabo Daciolo. Na rodada atual, Aécio figura no cenário principal, pontuando 1%.
Convém ser honesto quanto à magnitude: 1% não decide eleição. Mas o problema aqui não é aritmético, é metodológico. Aécio Neves foi candidato presidencial em 2014, antagonista histórico do PT, e seu eleitorado residual pertence quase integralmente ao campo da direita. Incluí-lo fragmenta esse campo; excluí-lo, consolida. Quando a lista muda de uma rodada para outra, a comparação entre rodadas, que é justamente o produto que o mercado e a imprensa mais consomem, deixa de comparar coisas iguais. A série histórica vira um filme montado com fotogramas de câmeras diferentes.
O terceiro ponto toca no terreno mais delicado da pesquisa de opinião: o efeito da ordem e do enquadramento das perguntas. A rodada atual dedica um bloco ao atrito público entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. O resultado: 64% dos entrevistados ouviram falar do desentendimento, e 46% avaliam que o episódio impacta negativamente as pretensões eleitorais do senador.
Perguntar sobre fatos políticos relevantes é legítimo. O que a literatura sobre “priming” ensina, de Kahneman aos manuais de survey design, é que a posição da pergunta no questionário altera as respostas seguintes. Se o bloco sobre a crise familiar for aplicado antes das perguntas de imagem ou de intenção de voto, o entrevistado responde já contaminado pela lembrança do episódio negativo. Os relatórios públicos da Nexus não permitem verificar com certeza a ordem de aplicação, e essa opacidade, por si só, já é um problema: num ambiente eleitoral, a ordem do questionário deveria ser informação tão pública quanto a margem de erro.
O precedente recente torna a dúvida menos teórica. Em junho, o TSE suspendeu, por decisão liminar do ministro Nunes Marques, uma pesquisa da AtlasIntel que abordava os áudios entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. O pedido partiu do PL, que alegou indução do eleitor pela estrutura do questionário, e o ministro entendeu haver indícios de contaminação das respostas. A AtlasIntel nega, sustenta que o material audiovisual só foi exibido após a conclusão do bloco eleitoral, e o Ministério Público Eleitoral emitiu parecer contrário à suspensão. O caso segue em julgamento. Independentemente do desfecho, ele estabeleceu algo importante: a Justiça Eleitoral admitiu, ao menos em sede liminar, que a arquitetura de um questionário pode ser instrumento de indução.
O que está em jogo
Pesquisa eleitoral não é fotografia neutra. É insumo de decisão: orienta doadores, define alianças, alimenta a profecia autorrealizável do “voto útil”. Quem controla o desenho do questionário controla, em parte, a percepção pública da viabilidade de cada candidato. Por isso a legislação exige registro no TSE e divulgação de metodologia. E por isso o eleitor atento precisa adquirir um hábito que a imprensa raramente incentiva: ler o questionário antes de acreditar na manchete.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Recebi essa pesquisa, sou de direita e Bolsonarista, quando completei a pesquisa, adivinha… não salvou, deu erro, será que se eu tivesse somente falado bem do partido das trevas teria dado erro?