Pesquisa eleitoral ou fábrica de opiniões? - Parte III
Real Time Big Data divulga números com cara de ciência, mas esconde justamente o que permitiria verificar se eles merecem confiança
Continuação do artigo Pesquisa eleitoral ou fábrica de opiniões, publicado na Revista Timeline.
ORLANDO FL, 22 de julho de 2026 — Esta é a terceira pesquisa que analisamos nesta série. A primeira foi a Genial/Quaest. A segunda, a BTG/Nexus. Agora chegou a vez da Real Time Big Data, divulgada nesta semana com ampla repercussão na imprensa nacional.
E, como nas anteriores, a pergunta que orienta esta análise não é quem subiu ou quem caiu. Essa é a discussão fácil, a que rende manchete. A pergunta que realmente importa é outra: como esses números foram produzidos?
É justamente aí que começa o maior problema do levantamento da Real Time Big Data.
O básico está lá. O essencial, não
O relatório apresenta percentuais com aparência de precisão científica. Lula com 40% no primeiro turno, Flávio Bolsonaro com 33%, empate técnico no segundo turno. Números redondos, gráficos limpos, tudo com aquele verniz de laboratório.
Mas o documento informa pouco além do mínimo: foram 2 mil entrevistas, realizadas entre 18 e 20 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, sob o registro BR-05864/2026 no Tribunal Superior Eleitoral. Isso é o básico. É o mínimo do mínimo. É o que qualquer instituto é obrigado a declarar.
O que realmente importa ficou de fora
Comecemos pelo mais elementar: o relatório não informa se as entrevistas foram presenciais, telefônicas ou digitais. Parte da imprensa noticiou que a coleta foi presencial, mas essa informação não consta do documento divulgado pelo instituto. Quando um dado básico de metodologia circula no noticiário e não no relatório oficial, já temos um sintoma do problema.
E a lista continua. O relatório não detalha como os entrevistados foram selecionados. Não divulga quais municípios participaram do levantamento e nem quantos pontos amostrais foram utilizados. Não explica os critérios de cotas e de ponderação adotados. Não informa a taxa de recusas, a taxa de resposta, os horários da coleta, a quantidade de entrevistadores em campo, os mecanismos de controle e auditoria das entrevistas, tampouco o efeito do desenho amostral sobre a margem de erro declarada.
Sem essas informações, não há como um especialista independente verificar se a amostra representa corretamente o eleitorado brasileiro. E aqui vale registrar um princípio que esta série vem repetindo desde o primeiro artigo: em pesquisa eleitoral, confiança não se conquista com gráficos bonitos. Conquista-se com transparência.
O Brasil não é um bloco só
Outro problema é a ausência da distribuição detalhada por estados e municípios. O relatório apresenta apenas percentuais por grandes regiões. Sabemos que Lula lidera no Nordeste e que Flávio Bolsonaro tem sua melhor marca no Sul. E só.
Não sabemos quantas entrevistas foram feitas em cada estado. Não sabemos quantas ocorreram em capitais e quantas no interior. Não sabemos se o peso dado a cada região corresponde de fato ao eleitorado registrado no TSE.
Isso não é detalhe técnico para acadêmico nenhum. É informação fundamental. Diferenças regionais mal calibradas podem alterar significativamente o resultado final de uma pesquisa nacional. Uma amostra com leve sobrepeso no Nordeste, por exemplo, infla artificialmente qualquer candidato governista. Um sobrepeso no Sul faria o movimento contrário. Sem os dados, ninguém pode afirmar que isso ocorreu. Mas ninguém pode afirmar que não ocorreu. E esse é exatamente o problema.
O desenho do cenário
O próprio formato do cenário estimulado também merece atenção.
Lula aparece praticamente sozinho representando o campo governista. Do outro lado, o eleitorado de oposição é dividido entre Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e outros nomes. Esse formato fragmenta naturalmente os votos da oposição e concentra os votos do governo em um único candidato.
O resultado é uma fotografia que pode ampliar a vantagem de Lula no primeiro turno. Não porque os números individuais estejam errados, mas porque a moldura escolhida favorece um dos lados da comparação. Quem olha só a manchete enxerga sete pontos de dianteira. Quem olha o desenho do cenário entende de onde parte dessa dianteira pode estar vindo.
Frases que não competem em igualdade
Há ainda um terceiro ponto, e este articulista considera que ele é o mais delicado de todos: a comparação de frases atribuídas aos candidatos.
O instrumento mistura tipos de mensagem que não competem em igualdade. O candidato Flávio Bolsonaro aparece associado a frases de ataque e confronto, do tipo que divide o eleitorado ao meio. Já outros candidatos são vinculados, em sua maioria, a frases genéricas e consensuais, daquelas com as quais é difícil alguém discordar, como a defesa de mais gestão ou o fim de privilégios. Comparar o índice de concordância entre frases de naturezas tão distintas produz uma régua torta: a mensagem consensual sempre parecerá mais aprovada que a mensagem de confronto, independentemente da força política de quem a assina.
E há um agravante metodológico: o nome do candidato é apresentado junto da frase, entre parênteses, no próprio questionário. Isso significa que o entrevistado não reage apenas ao conteúdo da mensagem. Reage também à simpatia ou à rejeição que já carrega pelo autor. Qualquer manual de metodologia de survey aponta esse efeito de contaminação. O instrumento, do jeito que foi construído, mede duas coisas ao mesmo tempo e apresenta o resultado como se medisse uma só.
O que isso prova? Nada. E é por isso que preocupa
Sejamos rigorosos, porque rigor é o que cobramos dos institutos: nenhum desses pontos, isoladamente, prova manipulação. Não há aqui acusação de fraude, e este artigo não faz essa afirmação.
Mas, somados, esses pontos revelam uma pesquisa com transparência metodológica insuficiente para sustentar conclusões tão categóricas quanto as que as manchetes desta semana apresentaram.
E, da forma como foi construída, sobretudo pelo desenho dos cenários que concentra o campo governista em um único nome e pulveriza a oposição, ela pode reforçar uma narrativa particularmente desfavorável a Flávio Bolsonaro, sem que o próprio relatório forneça elementos suficientes para verificar se essa narrativa decorre exclusivamente da opinião do eleitorado ou também das escolhas metodológicas feitas pelo instituto.
Essa é a distinção que separa jornalismo de replicação de release. Pesquisa eleitoral séria não teme auditoria. Ela convida à auditoria. Quando o relatório impede a verificação, a dúvida deixa de ser implicância de analista e passa a ser dever de quem informa.
A série continua. E a pergunta segue a mesma: não quem lidera, mas quem mostra como chegou ao número.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Parabéns por sua análise.