RIO DE JANEIRO, 20 de setembro de 2026 — Terça-feira, plenário do Supremo. Gilmar Mendes aponta o dedo para André Mendonça, relator do caso Master, e acusa o colega de “inequívoco viés político-eleitoral” na condução das investigações.
Depois, pausa e sentencia: “Isso não se faz. Pessoas decentes não fazem isso.”
Mendonça reage. Pede que ele não aponte o dedo. Gilmar devolve: quem não se dá ao respeito não merece respeito. Na mesma sessão, diria ainda que até a máfia tem ética.
Minutos depois, chama o colega de sujeito “investido de um sentimento policialesco”. Mendonça grita que exige respeito. E o decano da Corte responde com duas palavras que viralizaram: “pode chorar”.
Eu assisti àquela cena e fiquei com uma pergunta martelando. Quem fala tanto em decência está tão seguro assim?
Na quinta, o Estadão publicou o que a Polícia Federal tirou do celular de Daniel Vorcaro.
O cunhado
Francisco Feitosa, o Chiquinho, é ex-senador e irmão de Guiomar Feitosa, com quem Gilmar foi casado por 18 anos. Em 2024, quando as mensagens foram trocadas, Chiquinho era cunhado do ministro.
Entre abril e novembro de 2024, Chiquinho conversou com Vorcaro sobre dois processos que tramitavam no STF. Um sobre precatórios de uma usina na Paraíba comprados por fundos ligados ao Master. Outro sobre regras para abrir vagas em cursos de medicina. Um deles estava sob relatoria de Gilmar.
As mensagens mostram o acerto: R$ 500 mil líquidos por mês, mais R$ 800 mil na primeira parcela. O dinheiro sairia da Super Empreendimentos, empresa de Vorcaro que a PF hoje aponta como instrumento de lavagem e ocultação de patrimônio.
Procurado, Chiquinho primeiro negou ter trabalhado para o banqueiro. Depois admitiu o contrato “durante um curto período”, com uma empresa que, segundo ele, era vista como idônea na época.
Em setembro de 2024, ao cobrar a assinatura do contrato, ele escreveu a Vorcaro que estava 100% dedicado aos “nossos assuntos”.
E vem a separação
A separação foi anunciada no fim de novembro de 2025, depois de 18 anos de casamento, em plena ofensiva da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo. Meses antes, os Estados Unidos tinham sancionado Alexandre de Moraes e a mulher dele, Viviane Barci.
No anúncio, Guiomar disse que os dois tinham cansado de ser casados, mas jamais cansariam de ser amigos.
No mesmo dia, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo levantaram publicamente a suspeita de que tudo seria uma manobra para livrar Guiomar das sanções americanas. O casal nunca confirmou. Ninguém provou.
Não sou eu quem vai julgar a vida íntima de ninguém. Mas digo com toda a clareza: se um dia ficar provado que aquela separação foi encenada para driblar sanções, será muito mais do que esperteza jurídica. Será uma afronta às leis de Deus e um desrespeito ao sagrado matrimônio.
Casamento não é CNPJ que se abre e se fecha conforme a conveniência. O que Deus uniu não pode virar ferramenta de blindagem patrimonial.
E, nesse caso, o cunhado do meio milhão por mês nunca teria deixado de ser cunhado.
O roteiro
Agora volte comigo a abril de 2024, cinco meses antes daquele contrato. Chiquinho mandou a Vorcaro o contato de uma servidora do gabinete de Gilmar e uma sugestão de roteiro. Primeiro, uma conversa a sós com o ministro. Depois, entrariam o diretor jurídico do Master, André Krutchevsky, e o advogado Bruno Bianco, ex-AGU, contratado para cuidar dos precatórios.
O encontro aconteceu em 11 de abril de 2024, no gabinete. Depois, Chiquinho relatou ao banqueiro que a conversa de Bianco com Gilmar tinha ficado “perfeita”. Nas mensagens aparecem ainda um jantar com o ministro e uma reunião marcada com a irmã, Guiomar, que confirmou ter sido procurada e disse ter recusado o trabalho.
Gilmar afirma que não sabia de pagamento nenhum, que recebeu os advogados às claras e que votou contra o banco nas duas causas.
Mas me diga uma coisa, por que um banqueiro pagaria meio milhão por mês ao cunhado de um ministro do Supremo? Pelo talento de consultor de um ex-senador que nem sabia, segundo ele próprio, que Bianco advogava para Vorcaro?
O canal direto
E ainda não acabou.
A PF encontrou uma auditoria interna do BRB sobre o Master. As despesas do banco com escritórios de advocacia saltaram de R$ 76 milhões em 2023 para R$ 215 milhões em 2024. Desse bolo, R$ 33 milhões foram para o escritório de Dalide Corrêa.
Dalide dirigiu por sete anos o IDP, instituto fundado por Gilmar. Quando mandou fazer o pagamento, o diretor financeiro do Master se referiu a ela como “canal direto com o STF”.
Ela nega ter atuado no Supremo pelo banco. Gilmar diz que se afastou dela em 2017. A PF ainda não concluiu nada sobre a legalidade dos serviços.
Tudo isso pode ter explicação. Mas é coincidência demais em volta de um só gabinete.
O que eu penso
Pra mim, aquela fúria de terça-feira não foi à toa.
Não tenho como entrar na cabeça do ministro. Mas a leitura que faço é simples: quem sabe que uma investigação está chegando perto tende a atacar quem conduz a investigação. Desqualificar o relator, pintá-lo como cabo eleitoral, transformar o caso em briga política. Enterrar a história antes que ela venha à tona.
Só que ela veio.
As mensagens estão aí. Os valores estão aí. O roteiro da reunião está aí.
“Pessoas decentes não fazem isso”, disse o ministro. Concordo com ele. Por isso mesmo, quero saber o que pessoas decentes fazem quando o cunhado recebe meio milhão por mês de um banqueiro com causas no próprio gabinete.
E é isso que o Brasil espera agora, que tudo seja apurado, investigado, passado a limpo e que em caso de comprovação criminal que os culpados sejam punidos.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



