Plano de governo: Lula promete reconstruir o que ele mesmo não construiu em quatro mandatos
Documento de 84 páginas repete, palavra por palavra, as mesmas metas de saneamento, segurança e saúde que o PT já prometia resolver há mais de duas décadas
RIO DE JANEIRO, 11 de agosto de 2026 — O PT lançou o programa de governo de Lula para 2026. São 84 páginas. E logo na abertura, uma frase que merece ser emoldurada: “somos o verdadeiro novo”.
O verdadeiro novo. Do partido que ocupou o Planalto pela primeira vez em janeiro de 2003. Que já somou Lula I, Lula II, Dilma I, Dilma II e agora corre para o Lula III completar quatro mandatos e quase 18 anos de poder. Se isso é o novo, alguém precisa explicar o que seria o velho.
A graça, ou a tragédia, está no que o documento revela sem perceber.
Ainda “começando” depois de quatro anos
Sobre o SUS, o programa do governo afirma que “começamos a enfrentar o desafio da redução do tempo de espera por consultas e tratamentos”. Começamos. Depois de três anos e meio de mandato. Um presidente no seu quarto turno de governo ainda fala como se tivesse acabado de tomar posse.
Na educação, o texto promete combater “vazios educacionais e assimetrias regionais”. Os mesmos vazios que o PT prometeu preencher desde o primeiro mandato de Lula.
No saneamento básico, a situação beira o cômico. A universalização da água tratada e do esgoto já aparecia como meta central no programa presidencial de Lula em 2002. Estamos em 2026. Passaram-se 24 anos e a promessa é praticamente a mesma, com os mesmos verbos e a mesma urgência de sempre.
Segurança e corrupção: o adiamento como método
Sobre segurança pública, o programa de 2022 já falava em modernizar a governança e enfrentar o crime organizado. Agora, em 2026, o partido promete criar um Ministério da Segurança Pública, condicionado à aprovação de uma PEC. A grande reorganização da segurança nacional ficou reservada para o quarto mandato. Por quê?
No combate à corrupção, o programa promete perseguir “corruptos e corruptores, inclusive os do andar de cima” e modernizar o Portal da Transparência. O que o texto não faz é olhar no espelho. Não há uma linha de autocrítica sobre os maiores escândalos de corrupção da história recente do país, todos revelados durante governos do próprio PT. Prometer combate à corrupção sem prestar contas do próprio passado não é programa de governo. É amnésia seletiva.
A ameaça travestida de democracia
Há um trecho que merece atenção redobrada: a proposta de “regulação democrática das redes sociais e das plataformas digitais” para combater desinformação e discursos considerados nocivos. Em seguida, o texto reafirma a liberdade de expressão, como se as duas coisas coubessem juntas sem atrito.
Quem vai decidir o que é mentira e o que é opinião incômoda? Quem fiscaliza o fiscal? Depois de anos de bloqueios de redes, multas e inquéritos que já testaram os limites da liberdade de expressão no Brasil, um governo que busca o quarto mandato não deveria pedir cheque em branco para regular o que os brasileiros podem ou não dizer.
Os verbos que confessam o vazio
Vamos ampliar. Vamos fortalecer. Vamos avançar. Continuaremos. Fomentaremos. Buscaremos.
O programa é uma coleção de intenções, magro em metas com prazo, custo e responsável. Infelizmente, isso não é exclusividade do PT, muitos programas eleitorais brasileiros tendem à vagueza. Mas existe uma diferença: Lula não é estreante. Quanto mais tempo um partido passa no poder, menor deveria ser a tolerância do eleitor com promessas genéricas.
A herança que nunca termina
O texto volta seguidamente ao período 2016-2022 para descrever o país recebido em 2023 como “herança maldita”, culpando Temer e Bolsonaro. Há elementos reais nessa crítica, inclusive os efeitos da pandemia. Mas Lula governa desde janeiro de 2023. Em algum momento, um presidente precisa parar de ser herdeiro e assumir a propriedade dos próprios resultados. Quatro anos é tempo suficiente para isso.
A pergunta que o programa não responde
Depois de quase 18 anos de poder, o PT pede mais quatro anos para fazer o que prometeu em 2002, repetiu em 2022 e ainda descreve como trabalho em andamento em 2026.
A pergunta não é ideológica. Não importa se o leitor vota em Lula ou não. A pergunta é matemática: quanto tempo é suficiente?
Essa resposta, por sinal, não está nas 84 páginas do programa.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



