RIO DE JANEIRO, 6 de setembro de 2026 — Existe um número que quase ninguém repete no debate eleitoral deste ano, e ele explica mais coisas do que qualquer pesquisa.
R$ 882 milhões.
É o que o PL vai administrar nesta eleição, a maior fatia do fundo eleitoral que um partido já teve nas mãos na história do Brasil. Em 2022 a legenda era a sétima nesse ranking, com R$ 320 milhões. Bolsonaro chegou, os bolsonaristas chegaram atrás, a bancada inchou, e o partido saltou para o primeiro lugar. Quase o triplo em quatro anos.
Esse dinheiro não é de Valdemar Costa Neto. É de quem votou. Cada real ali dentro foi calculado a partir de votos que milhões de brasileiros depositaram em nome de um projeto de país. E é o presidente do partido, sozinho com sua Executiva, quem decide para onde ele vai.
Ele explicou o critério em agosto, com uma franqueza que merece ser lida devagar. Cada um dos 98 deputados federais do PL com mandato que disputasse reeleição ou Senado receberia R$ 3 milhões. Para os demais, disse ele, “depende do potencial”.
Potencial de voto. Não de projeto.
Está tudo ali. O PL registrou 568 candidaturas ao Congresso, mais que qualquer outra legenda. Valdemar projeta eleger 20 novos senadores e chegar a 2027 com uma bancada de 28. E aqui vem o que quase nunca aparece na conversa: cada cadeira no Senado rende cerca de R$ 9,1 milhões por ano ao fundo eleitoral do partido. Dos R$ 882 milhões deste ano, quase R$ 138 milhões vieram justamente da presença do PL no Senado.
Quanto maior a bancada, maior o fundo. Quanto maior o fundo, maior a bancada seguinte.
É uma máquina que se alimenta sozinha. E máquina não tem projeto de país. Máquina tem meta.
O que a máquina faz quando você olha de perto
Sergipe é o lugar onde essa engrenagem ficou exposta, porque lá os números não se escondem atrás de nada.
Comece pelo que o próprio bolsonarismo desenhou para o estado. Em fevereiro, anotações internas de Flávio Bolsonaro reveladas pelo Metrópoles já traziam a chapa sergipana pronta: Ricardo Marques para o governo, Rodrigo Valadares e Coronel Rocha para o Senado. Era a chamada chapa puro-sangue, a aposta do bolsonarismo raiz no Nordeste. Em março, Jair Bolsonaro chancelou o palanque. Em 6 de agosto, Flávio anunciou os dois nomes ao vivo, na lista dos 47 candidatos ao Senado que apoiaria no país.
Coronel Rocha, portanto, não é figurante. É um dos dois nomes que a própria família escolheu para Sergipe, oficial da reserva da Polícia Militar, um dos que mais cobraram fidelidade dos candidatos do PL à chapa majoritária.
Ele recebeu R$ 250 mil. No dia 31 de agosto precisou dizer em público que não tinha visto nem o dinheiro nem o material gráfico. Em 3 de setembro, o extrato da campanha dele ainda marcava zero.
Agora a outra coluna do mesmo caixa.
Rodrigo Valadares recebeu R$ 3 milhões. É deputado federal, está dentro da régua nacional, e sobre esse valor não há o que questionar. O problema começa depois dele.
Moana Valadares, esposa de Rodrigo, vereadora de Aracaju, candidata a deputada federal pela primeira vez, recebeu exatamente os mesmos R$ 3 milhões. A régua que Valdemar anunciou vale para quem tem mandato na Câmara. Moana não tem. Padre Kelmon, sem mandato, ficou com R$ 1,2 milhão. Jair Renan Bolsonaro, sem mandato, com R$ 1,5 milhão. A esposa do presidente estadual do PL recebeu o dobro do filho de Jair Bolsonaro.
Vale registrar quem decidiu isso. O diretório sergipano é presidido por Rodrigo Valadares. Antes de ele oficializar a filiação, na janela de abril, quem presidia interinamente era Moana. O órgão que distribui o fundo e o casal que mais recebeu do fundo são o mesmo endereço.
Diná Almeida, que não ocupa mandato desde 2023, recebeu R$ 3,1 milhões, o maior valor individual do partido no estado.
E Ricardo Marques, o candidato do PL ao governo, o nome que estava nas anotações de Flávio e no aval de Jair, ficou fora da distribuição nacional. Recebeu R$ 300 mil da executiva estadual. Um levantamento do Jornal Opção mostra que onze candidatos do PL a governador já somavam R$ 89,8 milhões, liderados pelo Rio de Janeiro com R$ 17,8 milhões. Ricardo não aparece nessa lista. Não tinha o que aparecer.
Fábio Mitidieri, o adversário que ele enfrenta, aparece com mais de R$ 6 milhões.
O detalhe que transforma tudo
Luciano Pimentel é deputado estadual pelo PL e disputa a reeleição. Em junho, perguntado sobre a majoritária, foi direto: acompanha o candidato do PL à Presidência, apoia Rodrigo Valadares para o Senado e, para governador, “tenho um compromisso com o governador Fábio Mitidieri”. Não com o candidato do próprio partido. Com o adversário dele.
E Mitidieri, em agosto, subiu no palco da própria convenção para anunciar que o time de Lula estava pronto.
Segundo a atualização mais recente do DivulgaCand, Luciano aparece com R$ 1 milhão.
Ninguém transferiu dinheiro do PL para Lula. O recurso é da campanha de Luciano e será prestado em contas. Mas campanha não acontece dentro de uma caixa. Contrata equipe, imprime material, roda município, senta com prefeito e vereador. Quando esse candidato chega numa cidade pedindo voto para si e para Mitidieri, a estrutura financiada pelo PL está trabalhando para qual projeto?
Agora leve a pergunta para Goiás.
No dia 27 de agosto, a executiva estadual do PL recebeu por unanimidade uma representação por infidelidade partidária contra Márcio Corrêa, prefeito de Anápolis, que declarou apoio a Daniel Vilela, do MDB, contra o candidato da própria legenda ao governo. O caso está no Conselho de Ética e o prefeito terá ampla defesa. O fundamento é o que importa: o partido sustenta que existe uma resolução da executiva nacional proibindo eleitos pelo PL de apoiar publicamente candidatos de outras siglas quando a legenda tem candidatura própria.
Nacional. Vale para Goiás e vale para Sergipe.
Então por que a mesma conduta rende processo de expulsão num estado e R$ 1 milhão no outro?
Nas pesquisas divulgadas em 4 de setembro, Rodrigo Valadares aparecia com 9% e Coronel Rocha com 7%. Doze vezes mais dinheiro para dois pontos de diferença, num levantamento feito exatamente nos dias em que o dinheiro caía nas contas. Não prova nada sobre o efeito da verba. Prova algo sobre a decisão: a direção nacional escolheu antes de qualquer resultado aparecer.
O preço de uma meta
Não é preciso inventar denúncia. Os números oficiais já produzem perguntas graves o bastante, e elas se resumem a uma só.
Cadeira de deputado alimenta o fundo. Cadeira de senador alimenta o fundo. Cadeira de governador não alimenta nada. E a Presidência da República, o cargo em nome do qual todo esse dinheiro foi pedido ao eleitor, também não vale um centavo.
Isso não é interpretação minha. É a lei. O fundo eleitoral se divide em quatro fatias: 2% iguais entre os partidos registrados no TSE, 35% pelos votos para a Câmara, 48% pelo número de deputados federais eleitos e 15% pela bancada do Senado. O Fundo Partidário, que sustenta a estrutura da legenda o ano inteiro, segue o mesmo desenho: 5% iguais e 95% pelos votos para a Câmara. Some tudo. Presidente da República não aparece em nenhuma parcela. Governador tampouco.
Vencer o Planalto vale muita coisa. Poder, governo, ministérios, orçamento, o rumo do país. Só não vale um real no cálculo que define quanto dinheiro público entra no cofre do PL em 2030. Deputado vale. Senador vale. O projeto de país, na planilha, vale zero.
Um partido organizado em torno do próprio caixa vai, inevitavelmente, tratar essas coisas de maneira diferente, e foi exatamente isso que aconteceu em Sergipe.
Valdemar Costa Neto tem 77 anos e comanda o PL desde 2020. Já presidiu o partido antes, saiu no episódio do mensalão, voltou. Sobreviveu a tudo porque entende de uma coisa melhor do que qualquer outro dirigente partidário no Brasil: aritmética de bancada. Ele não precisa que Flávio Bolsonaro vença em outubro. A vitória do candidato à Presidência não muda uma linha da planilha dele.
E é por isso que a chapa puro-sangue de Sergipe, desenhada por Flávio, chancelada por Jair e vendida ao eleitor sergipano como projeto de país, foi tratada em Brasília como uma planilha. O candidato ao governo virou linha vazia. Um dos dois senadores da família ficou com R$ 250 mil que demoraram a chegar. E R$ 9,1 milhões foram para três candidaturas, duas delas de pessoas que não têm mandato federal, uma delas casada com quem preside o diretório.
Milhões de brasileiros não votam no PL para engordar o caixa do PL. Votam porque acreditam que estão apoiando uma virada, uma disputa que consideram existencial. Esses eleitores merecem saber que, na contabilidade da direção nacional, o critério não era o projeto que eles acham que estão financiando.
O critério era potencial de voto. E Valdemar disse isso ele mesmo, em voz alta, sem que ninguém perguntasse.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Parabéns pela pesquisa que envolveu esta publicação. Fica-se impressionado como os políticos de um modo geral, parece que são todos farinha do mesmo saco. De nada interessa o povo, os destinos do país. Interessa encher de dinheiro seus próprios bolsos e manter o poder nas próprias mãos. Quem pensa alguma coisa, neste país parece que a maioria não pensa, acaba por ficar desiludido de tudo. Sempre há uma esperança porque ainda restam alguns raros políticos que no momento parecem sérios... até que o próximo escândalo mostre sua verdadeira face.