Prometeu picanha, o brasileiro ficou com o osso
Quinze anos, uma promessa repetida em todo palanque e uma imagem que se recusa a sair de cena. Quem ainda acredita que agora vai ser diferente?
Rio de Janeiro - RJ | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (006)
A imagem voltou a circular, e ela não envelhece. Uma fila de gente com sacola na mão esperando a vez para levar osso. Não bife, não peito, não coxão. Osso. A carne que ficou presa entre um corte e outro, o que sobra depois que o açougue já tirou o que dava para vender. Em Fortaleza, isso deixou de ser cena de exceção faz tempo. Virou paisagem.
E aqui entra o detalhe que ninguém no governo quer encarar de frente. Essa fila não nasceu ontem. O projeto social que aparece nos vídeos existe desde 2010, no primeiro governo Lula. Atravessou os dois mandatos de Dilma quando a tal ossada de primeira e de segunda já lotava as bancas dos frigoríficos da periferia. E segue exatamente igual agora, no terceiro mandato de quem prometeu enterrar a fome de vez.
Repare no que isso significa. Governos entraram, governos saíram, além de Dilma, Bolsonaro e Temer, e a fila permaneceu. Ela denuncia todos que passaram por Brasília e não resolveram. A diferença é que um desses presidentes fez da fome o seu maior slogan. Prometeu tirar o Brasil do Mapa da Fome. Prometeu, com todas as letras, picanha no prato do trabalhador. Subiu em palanque dizendo isso, ganhou eleição com isso, emocionou plateia com isso.
Quinze anos depois do começo daquela primeira gestão, o cardápio que ele conseguiu entregar tem nome. Chama-se osso.
Não é retórica. Olhe o preço. A carne bovina no atacado da Grande São Paulo chegou a R$ 25,05 o quilo na parcial de abril, o maior valor real de toda a série histórica do Cepea, que começa em 2001. Em relação a abril do ano anterior, o salto foi de quase 45%. Recorde. E não é a picanha da propaganda que sumiu do prato do brasileiro. É o acém, é o músculo, é o corte que a dona de casa comprava para engrossar o feijão da semana. Foi esse que ficou caro demais.
Junte as duas pontas. De um lado, a promessa de fartura. Do outro, a realidade da conta que não fecha. O trabalhador ouviu falar em picanha e recebeu osso e um salário que corre atrás dos preços sem nunca alcançar.
E o mais desconfortável ainda nem foi dito. Fortaleza é capital. Tem porto, tem aeroporto, tem político que aparece na foto quando convém. Se a fila do osso resiste ali, no centro urbano onde o país inteiro consegue enxergar, imagine o que acontece no interior e no sertão. Onde não chega repórter, não chega holofote e, muitas vezes, não chega nem o osso. A miséria que a cidade grande consegue esconder atrás de um projeto social, o sertão vive sem plateia e sem consolo.
Fica então a pergunta que o marketing do governo nunca vai imprimir em outdoor. Depois de três mandatos, com toda a máquina pública na mão, com programa social, com propaganda milionária, com tempo de sobra para governar, o que exatamente mudou na vida de quem espera na fila?
A resposta está na própria imagem que se repete todo ano. Nada mudou. A fila continua do mesmo tamanho, com a mesma gente, esperando a mesma sobra.
Prometer o fim da fome é fácil. Cabe em qualquer discurso, comove qualquer plateia. Difícil é olhar para a fila que persiste há quinze anos e ainda ter coragem de pedir mais quatro para tentar de novo. Quem viveu quinze anos de promessa sabe muito bem o gosto do que sobrou. E não é picanha.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.


