RIO DE JANEIRO, 13 de setembro de 2026 — Um documento de mais de oitenta páginas ficou sete meses parado.
Ele tem número e tem carimbo: Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 893171/2026. A Polícia Federal o produziu a partir do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, apreendido no fim de 2025. O relatório foi enviado ao Supremo Tribunal Federal.
E ficou lá. Quieto.
Esse documento foi retirado da gaveta ontem. O que está escrito nele muda o tamanho de tudo o que estávamos discutindo.
A Polícia Federal apontou, oficialmente, em documento produzido e assinado por ela, que o ministro Dias Toffoli pode ter figurado como “beneficiário final” ou “proprietário de fato” do FIP Arleen, o fundo de investimento que recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro.
Isso mesmo. A Polícia Federal escreveu o nome de um ministro do Supremo Tribunal Federal ao lado da expressão “proprietário de fato”. Em papel timbrado.
O caminho do dinheiro
Agora acompanhe o dinheiro, porque a sequência é o ponto.
O Arleen era de Vorcaro. E esse fundo tinha participação no Tayayá, resort em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, ligado à Maridt, empresa dos irmãos do ministro e da qual o próprio Toffoli já admitiu fazer parte do quadro societário.
Fevereiro de 2025: o fundo é comprado por Alberto Leite, empresário descrito como amigo de Toffoli, dono da empresa de segurança FS Security.
Março: Leite registra a holding Egide I nas Ilhas Virgens Britânicas. No mesmo período, o regulamento do Arleen é alterado para permitir investimentos no exterior. A porta se abre.
Dezembro: cerca de R$ 34 milhões saem do fundo e vão para a holding no Caribe. Nas palavras do relatório, todo o ativo do Arleen é transferido para a Egide I na liquidação do fundo.
Compra, mudança de regra, remessa. Dez meses.
E tem um detalhe que ficou na minha cabeça desde que li. Segundo o relatório, ao orientar a transferência do fundo, Vorcaro pediu uma minuta de contrato sem identificação explícita de nomes. A instrução foi de duas palavras: “Sem nome”.
A parte que dói
Quem era o relator do caso Banco Master no Supremo? Dias Toffoli.
Foi ele quem, em janeiro deste ano, determinou o sequestro e o bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em bens ligados a Vorcaro.
O ministro que julgava o banqueiro é o mesmo que aparece, no relatório da PF, ligado ao dinheiro do banqueiro.
O gabinete de Toffoli nega. Diz que o ministro “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior” e que “jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas”. Afirma ainda que o relatório foi arquivado, com decisão transitada em julgado, e que os dez ministros da Corte tomaram ciência do conteúdo em fevereiro deste ano, deliberando pela inexistência de suspeição.
Duas coisas me incomodam nessa resposta.
A primeira é o que ela não diz. A nota não trata do Arleen, não trata de Alberto Leite e não trata da Egide I. Responde ao contorno e passa longe do miolo.
A segunda é a palavra “arquivado”. A piauí sustenta que o que os ministros arquivaram em fevereiro foi uma arguição de suspeição contra Toffoli, e não o relatório da PF que serviu de base a ela. São coisas diferentes. Arquivar o pedido não apaga o documento.
As providências cabíveis caberiam ao novo relator do inquérito do Master, o ministro André Mendonça. Questionado pela revista, Mendonça afirmou que o relatório não foi enviado a ele.
Ou seja: ninguém tem, ninguém viu, ninguém responde.
O que eu quero
Não estou dizendo que o ministro é culpado. Apontar não é comprovar, e a própria PF registra que os elementos reunidos ainda demandam aprofundamento analítico.
Mas apontar também não é nada. É a polícia que investiga o crime organizado escrevendo, em documento oficial, o nome de quem senta no Supremo.
Estou dizendo outra coisa, e é mais simples.
Se essa suspeita recaísse sobre um professor da rede pública, sobre um servidor de carreira, sobre você, o processo já teria nome, número, prazo e manchete. Quando recai sobre quem julga o país, vira um arquivo de oitenta páginas dormindo sete meses dentro de um gabinete.
Eu quero saber quem ficou com esse dinheiro. Por que ele foi repassado. E qual era, afinal, a participação do ministro.
Não é curiosidade. É direito.
Você paga por esse tribunal.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Um Congresso que dá o Impeachment para Dilma sem cassar seus direitos políticos. Um STF que liberta um condenado em 3 instâncias para sentá-lo na cadeira de presidente. Que legado para as futuras gerações!
Judiciário, Congresso, executivo td uma m* só, corruptos ladroes quadrilheiros e maus carateres.