Quanto deveria custar um cargo que não existe?
Janja afirma ser a primeira-dama que “trabalha efetivamente” e chama críticas aos seus gastos de misoginia.
RIO DE JANEIRO, 15 de julho de 2026 - Deixem a Janja falar. Sério. Cada vez que a primeira-dama abre a boca, ela produz mais material contra o próprio governo do que qualquer oposição conseguiria sonhar. E na segunda-feira ela se superou.
Em entrevista ao podcast Frente a Frente, Rosângela da Silva foi questionada sobre a fama de gastadeira que acumulou em três anos e meio de viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo e enormes comitivas. A resposta veio pronta: as críticas seriam “misoginia pura”, uma “estratégia da extrema-direita” para atingir o presidente.
Entenda o raciocínio. Se você acha caro pagar classe executiva para a esposa do presidente, o problema não é o preço da passagem. O problema é você, que odeia mulheres.
Mas o melhor ainda estava por vir. Na mesma entrevista, Janja declarou que “a sociedade brasileira nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”. Segundo ela, o país e a imprensa simplesmente não estavam acostumados com uma primeira-dama que vai ao Planalto, faz reunião e viaja a trabalho.
Nunca teve. Nenhuma. Em toda a história da República.
A frase foi tão infeliz que a reação veio de aliados de Ruth Cardoso, a antropóloga que criou e comandou o Comunidade Solidária durante oito anos, e nunca precisou de um centavo público e nem de holofote para isso. Aliados de Michelle Bolsonaro e admiradores de Marisa Letícia também cobraram respeito. Janja conseguiu a proeza de unir tucanos, bolsonaristas e petistas históricos no mesmo constrangimento.
E quanto custa esse “trabalho efetivo”?
É aqui que a conversa fica interessante. Existe um site chamado Janjômetro que se dedica a compilar todas as despesas públicas associadas à primeira-dama desde o início do mandato. Reportagens, Diário Oficial, Portal da Transparência. Está tudo lá.
O contador da plataforma já ultrapassou os R$ 117 milhões.
Segundo os cálculos exibidos pelo próprio site, isso equivale a cerca de R$ 71 mil por dia. Ou R$ 2.983 por hora. Ou R$ 50 por minuto. Faça o teste: no tempo que você levou para ler este artigo até aqui, a conta já subiu o suficiente para pagar uma semana de supermercado de uma família brasileira. A cada 33 minutos, evapora o equivalente a um salário mínimo inteiro.
O governo, claro, contesta. A Secom diz que não reconhece os valores e checagens de imprensa apontam que o site soma na conta de Janja despesas de comitivas inteiras, eventos oficiais como o G20 Social e até reformas nos palácios presidenciais.
Aceitemos a defesa, então. Digamos que boa parte dos R$ 117 milhões seja de comitivas, seguranças, assessores e eventos que orbitam a primeira-dama, e não dela pessoalmente.
Isso melhora ou piora a situação?
Porque a pergunta que ninguém no Planalto quer responder é anterior a qualquer planilha: quanto deveria custar um cargo que não existe? Primeira-dama não é função pública. Não está na Constituição, não passou por concurso, não foi eleita, não tem salário justamente porque não tem cargo. E mesmo assim mantém equipe paga pelo contribuinte, agenda oficial, viagens em classe executiva bancadas por “regramentos de segurança”.
Se cada real desses milhões for tecnicamente legal, o problema não desaparece. Ele muda de nome: deixa de ser irregularidade e vira escolha. A escolha de um governo que fala em justiça fiscal, taxa o trabalhador e depois trata a esposa do presidente como um ministério informal, sem a transparência, a responsabilidade e o controle que se exige de um ministério de verdade.
Janja pediu, na mesma entrevista, que o Congresso aprove o projeto de lei que criminaliza a misoginia. Fica a dúvida sobre o alcance da proposta. Perguntar quanto custa a primeira-dama entraria na nova lei?
Enquanto a resposta não vem, o contador segue rodando. Cinquenta reais por minuto. Pagos por você, que é o verdadeiro trabalhador brasileiro.
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



