RIO DE JANEIRO, 1º de outubro de 2026 — Na terça-feira, 29 de setembro, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força, presidente do Solidariedade, fez duas jogadas no mesmo dia.
Foi ao ministro Flávio Dino pedir que André Mendonça e Kassio Nunes Marques, vice e presidente do TSE, fossem afastados da fiscalização da propaganda eleitoral. Em seguida, protocolou no Senado pedidos de impeachment contra Kassio e Luiz Fux. Contra Mendonça, ele já tinha entrado com o pedido de impeachment cinco dias antes, em 24 de setembro.
Três ministros. Os três da ala que hoje enfrenta Alexandre de Moraes dentro do Supremo. Nenhuma linha contra Moraes.
Guarde esse detalhe, é ele que puxa o novelo inteiro.
O fiscal da imparcialidade
Quem lê os pedidos imagina um parlamentar indignado com a falta de isenção de juízes. Fui atrás de quem assina. O que encontrei foi uma ficha que atravessa três décadas.
Entre 1999 e 2000, como presidente da Força Sindical, Paulinho contratou sem licitação, com dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador, uma fundação sem capacidade técnica para o serviço. O TRF da 3ª Região o condenou por improbidade em 2017 e suspendeu seus direitos políticos por cinco anos. Dinheiro do FAT. Dinheiro que existe para amparar o trabalhador demitido.
Em 2001 veio o Banco da Terra. Foram R$ 3 milhões para assentar 72 famílias sem terra numa fazenda em Piraju, no interior paulista. A terra era improdutiva e o MPF comprovou superfaturamento de mais de R$ 1 milhão. A Força Sindical fazia a análise técnica do projeto e ainda tinha assento no conselho que liberou o dinheiro. Condenação em 2011, mantida em 2014, com ordem de devolver R$ 1 milhão.
Pense naquelas 72 famílias. Gente que esperou anos por um pedaço de chão e recebeu um lote que não sustentava ninguém.
Dez anos de cadeia que viraram nada
Em junho de 2020, a Primeira Turma do STF condenou Paulinho a 10 anos e 2 meses de prisão, em regime fechado, por crime contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Segundo a PGR, o grupo cobrava comissão de quem obtinha financiamento no BNDES. Os empréstimos citados, para a rede Marisa e a prefeitura de Praia Grande, somavam R$ 524 milhões. Ele perdeu o mandato.
O placar foi 3 a 2. Fux, Barroso e Rosa Weber condenaram. Votaram pela absolvição o revisor, Marco Aurélio, e o relator do caso: Alexandre de Moraes.
Um mês depois, em julho de 2020, a Polícia Federal bateu no gabinete dele, no apartamento funcional e na sede da Força Sindical. Era a primeira fase da Operação Dark Side. A acusação: R$ 1,7 milhão em caixa 2 da J&F nas campanhas de 2010 e 2012, pago em dinheiro vivo e por contratos simulados com o escritório de advocacia do genro dele. A PF o indiciou em outubro por falsidade ideológica eleitoral, corrupção passiva e lavagem. O Ministério Público paulista o denunciou dias depois.
Agora repare no que aconteceu com a condenação do BNDES.
O recurso da defesa ficou dois anos sem julgamento. Em 2022, o TRE-SP barrou a candidatura dele por causa da condenação. A Primeira Turma então suspendeu os efeitos da pena, inclusive a inelegibilidade, justamente porque o recurso continuava parado. A demora do próprio tribunal virou a salvação do réu.
Em 20 de novembro de 2023, o plenário do STF reverteu tudo por 6 a 3. A maioria seguiu Moraes, que afirmou faltar prova suficiente. Fux, Barroso e Fachin queriam manter a condenação.
Dez dias depois, em 30 de novembro, Paulinho estava de volta à Câmara, como suplente, após a cassação de Marcelo Lima pelo TSE.
A gaveta que alguém abriu
Havia ainda outro inquérito no STF. Ele apura a suspeita de que Paulinho receberia R$ 100 mil por mês para repassar listas de trabalhadores demitidos, obtidas em sindicatos sob sua influência, a um esquema de captação de clientes para ações trabalhistas. Ele nega.
Em 2023, a PF perguntou ao Supremo se o caso ficava lá ou descia para a primeira instância. Ninguém respondeu. Paulinho voltou a ter foro e o processo dormiu por dois anos.
Em 9 de dezembro de 2025, André Mendonça acordou o inquérito e mandou para a PGR.
Fux votou para condená-lo. Mendonça tirou da gaveta o caso que estava parado. Os dois estão hoje na lista de impeachment dele.
E tem um detalhe que eu não esperava encontrar. Mendonça e Kassio votaram pela absolvição de Paulinho em 2023. Então não se trata de vingança contra quem o julgou com rigor. Trata-se de escolher um lado na guerra que racha o Supremo.
O lado escolhido
Em 2025, Paulinho virou relator da anistia aos presos do 8 de janeiro. Em pouco tempo o texto encolheu para dosimetria, depois de uma articulação que passou por Michel Temer e chegou a Moraes. Quando Moraes suspendeu a aplicação da lei, em maio deste ano, foi Paulinho quem saiu do gabinete do ministro, em 12 de maio, dizendo ter tido uma reunião “positiva”.
Em 3 de setembro, Moraes acusou Mendonça, relator dos casos Master e INSS, de improbidade, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Fachin tirou o pedido do inquérito das fake news.
Três semanas depois, o pedido de impeachment de Paulinho contra Mendonça repete a mesma acusação de crime de responsabilidade. Contra Fux, ele cita os contatos do filho do ministro com Daniel Vorcaro. Contra Kassio, as hospedagens de luxo que Vorcaro teria bancado.
Se as suspeitas sobre ministros e o Banco Master são graves, que se apure tudo. Inclusive as mensagens de Vorcaro para Moraes, tornadas públicas pelo próprio Mendonça. Mas é curioso que o zelo de Paulinho pare exatamente na porta de um único gabinete.
Rabo preso não tem partido
Em bom português, é o retrato de um político de rabo preso. Alguém que deve demais para se dar ao luxo de contrariar quem pode decidir o futuro dele.
E a pergunta que fica é desconfortável. Um homem nessa situação age por convicção ou por conveniência? Ele é autor dos próprios pedidos ou apenas a mão que assina o que outros não podem assinar?
Enquanto isso, a eleição corre. A propaganda eleitoral é fiscalizada por um TSE que agora tem seu presidente e seu vice sob ataque, a poucos dias do primeiro turno. Quem ganha com esse tumulto não é o eleitor.
Lembro das 72 famílias de Piraju. Do trabalhador demitido cujo nome pode ter virado mercadoria numa lista. Do dinheiro do FAT que deveria pagar curso e virou contrato sem licitação. Essas pessoas nunca tiveram um ministro para chamar de amigo.
Todo brasileiro conhece desde criança o teatro de bonecos. A plateia vê o boneco gesticular, ameaçar, apontar o dedo. Ri, se assusta, torce. O que ela não vê é a mão escondida atrás da cortina.
Paulinho da Força está no palco. Aponta o dedo para Mendonça, para Kassio, para Fux. Fala em imparcialidade, em decoro, em crime de responsabilidade. A boca que se mexe é a dele. As palavras, nem tanto: chegaram ao Senado três semanas depois de saírem de outra caneta.
E aí o teatro de bonecos vira número de ventríloquo. Você já reparou que o boneco do ventríloquo é sempre o mais valente do palco? Xinga, provoca, diz o que o dono jamais diria em voz alta. O dono fica ali, sereno, de lábios fechados, com cara de quem não tem nada a ver com aquilo. A acusação contra Mendonça saiu primeiro de um despacho de Moraes. Fachin tirou o pedido de cena. Três semanas depois, a mesma acusação voltou ao palco pela boca de Paulinho.
Não sei quem segura os fios. Não tenho a foto da mão. Mas sei reconhecer um boneco quando ele se move exatamente no compasso de quem o absolveu duas vezes, poupa um único gabinete e entra em cena na hora certa, com o texto certo, contra os alvos certos.
O drama da marionete não é ser de madeira. É não poder cortar os próprios fios. O drama do boneco de ventríloquo é ainda pior: ele nem tem voz própria. Quem deve a liberdade a alguém nunca dança a própria música, nem canta a própria canção.
No domingo, quem sobe ao palco é você. Na urna não há fio, não há mão escondida, não há voz emprestada, não há ministro para chamar de amigo. Há só a sua escolha. Faça dela a tesoura.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




O “Paulinho da FRAQUEZA” é uma VERGONHA até pros mais baixos e submissos sabujos de Michel Temer e do ditador psicopata careca iMoraes (indicado pelo vampiro da planilha de propinas da Odebrecht)❗️😪 Como eu queria ter uma descarga gigantesca e jogar todos esses inimigos do Brasil 🇧🇷 dentro❗️🤢🤮