R$ 12 bilhões. Carvão. J&F, Batistas e energia suja
Candiota III ficou meses sem gerar energia, recebeu subsídio milionário e agora ganhou contrato bilionário do governo federal
ORLANDO FL, 28 de julho de 2026 — Enquanto o brasileiro encara a conta de luz mais pesada de sua história, o governo federal encontrou um destino curioso para o dinheiro do consumidor: uma usina a carvão dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
Não é força de expressão. É contrato, com número, prazo e beneficiário.
O Ministério de Minas e Energia estruturou a contratação, por 15 anos, da energia gerada pela Usina Termelétrica Candiota III, no Rio Grande do Sul, operada pela Âmbar Energia, empresa do grupo J&F. A receita fixa prevista é de R$ 859,7 milhões por ano até 2040. Em valores presentes, a fatura ultrapassa R$ 12 bilhões.
E a que preço? R$ 540,27 por megawatt-hora. Segundo cálculos baseados em dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, isso representa 50,2% acima da média de R$ 359,50 registrada em leilões de energia a carvão sem subsídio, a referência do setor.
Cinquenta por cento acima do mercado. Por energia suja. Por 15 anos. Quem paga? Você, na tarifa.
O jabuti de 18 segundos
Como uma contratação dessas se torna obrigatória? Da pior forma possível: por um “jabuti”, aquele trecho enxertado numa medida provisória sem relação com o tema original. O dispositivo, aprovado em segundos pelos plenários da Câmara e do Senado no fim do ano passado, determina que termelétricas a carvão com contrato vigente em 31 de dezembro de 2022 sejam recontratadas até dezembro de 2040.
A lei não cita a J&F. Não precisa. Na prática, o desenho da regra veste como luva na usina de Candiota.
Lula tinha a caneta na mão para vetar. A própria ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, recomendou o veto. O presidente sancionou assim mesmo, semanas depois de discursar contra os combustíveis fósseis na COP30, em Belém. Coerência, definitivamente, não é o forte deste governo.
Quem recebe o dinheiro
Vale lembrar quem está do outro lado do balcão. Joesley e Wesley Batista confessaram, em 2017, uma das maiores tramas de corrupção já reveladas no país. A J&F assinou acordo de leniência bilionário com as autoridades. Nove anos depois, o mesmo grupo é contemplado com um contrato público de longuíssimo prazo, acima do preço de mercado, garantido por lei feita sob medida.
Não existe eufemismo capaz de suavizar esse quadro. É a socialização do custo e a privatização do benefício, com selo oficial.
Até o TCU mandou parar
A história ficou ainda pior em abril. O Tribunal de Contas da União identificou indícios de irregularidade e risco de sobrepreço na contratação e suspendeu, em caráter cautelar, a parcela referente ao reembolso da CDE embutida na receita da usina. Sem esse componente, o pagamento anual cairia cerca de R$ 145,5 milhões, uma diferença de R$ 2,18 bilhões ao longo dos 15 anos.
O ministro Walton Alencar Rodrigues falou em “onerosidade excessiva”. E um detalhe revelador, apurado pela imprensa investigativa: o contrato foi assinado um dia antes da liminar do tribunal. Pressa admirável, não acham?
Há mais. Reportagens do setor mostram que Candiota III ficou meses parada em 2024, inclusive durante a tragédia climática no Rio Grande do Sul, quando energia firme seria mais necessária, e ainda assim recebeu dezenas de milhões em subsídios da CDE. Em dezembro daquele ano, o Ibama multou a Âmbar por problemas ambientais na usina.
A conta chega para você
O governo alega que a geração térmica garante segurança ao sistema elétrico e que apenas cumpre a lei aprovada pelo Congresso. O argumento não responde à pergunta essencial: por que pagar 50% acima do mercado, sem concorrência, a um grupo com esse histórico, por uma fonte que o próprio governo diz combater?
Enquanto isso, a tarifa sobe, a bandeira vermelha vira rotina e o brasileiro comum corta gastos para manter a geladeira ligada.
Este caso precisa de luz, e não da luz cara de Candiota. Cobre seus deputados e senadores. Acompanhe o julgamento de mérito no TCU. Compartilhe esta informação. Dinheiro público só é respeitado quando o cidadão vigia.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



Os irmãos batista tem a certeza que vão se sair bem de todas essas manobras...
Pôr que!?