R$ 208 mil por dia: o preço da ‘imprensa livre’ que cobre o governo Lula
O preço da cobertura complacente: Globo embolsou R$ 267 milhões do governo Lula em três anos e meio.
Manaus - Amazonas | Por Rogerio Pires | Revista Timeline (004)
Existe um velho ditado que o jornalismo costumava levar a sério: não existe almoço grátis. Quando alguém paga a conta, sempre espera algo em troca. Os números que vieram a público esta semana explicam muita coisa que o telespectador médio nunca conseguiu entender direito.
O Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade estatal federal da Secom, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, no terceiro governo de Lula. A cifra cobre o período de 1º de janeiro de 2023 a 15 de junho de 2026 e inclui campanhas veiculadas em televisão, internet, streaming, revistas e jornais impressos. Poder360
Faça as contas. São mais de três anos e meio de recursos públicos despejados no caixa da família Marinho. Dividindo o total pelos dias do período, chega-se a algo em torno de R$ 208 mil por dia. Todo dia. Incluindo finais de semana.
A concentração não é mero detalhe estatístico. O valor total recebido pelo Grupo Globo é 118% maior do que o destinado ao Grupo Record, segundo colocado, que acumulou R$ 122 milhões no mesmo intervalo. Poder360 Isso significa que a Globo sozinha levou mais do que o dobro do que a Record recebeu. E quando se somam Record, SBT e Band juntos, a Globo ainda fica à frente.
Na lista dos que mais receberam recursos da Secom, Record aparece com R$ 122,6 milhões, a Meta com R$ 85,9 milhões, o Google com R$ 80,9 milhões, o SBT com R$ 68,7 milhões e o Grupo Bandeirantes com R$ 49,8 milhões. Blog do GM A Globo, sozinha, superou todos eles com folga.
O número global também impressiona. No total, a Secom alocou quase 1 BILHÃO DE REAIS (954,5 milhões para ser exato) em publicidade desde o início do terceiro mandato. Os gastos cresceram ano após ano: R$ 175,9 milhões em 2023, R$ 234,9 milhões em 2024, R$ 365,7 milhões em 2025, e R$ 178 milhões apenas nos primeiros cinco meses e meio de 2026. Revista Oeste A curva é ascendente. Ano eleitoral à vista, o ritmo acelera.
Vale lembrar o que esses dados não mostram. O balanço divulgado não inclui as despesas publicitárias de ministérios e empresas estatais, como a Petrobras e o Banco do Brasil, cujos números não são divulgados de forma centralizada desde 2017. Poder Nacional O que está na mesa já é constrangedor. O que está escondido pode ser ainda maior.
Diante disso, vale perguntar: por acaso é coincidência que a emissora com a maior fatia da verba publicitária federal seja também aquela que produz a cobertura mais condescendente com o governo atual? A resposta cada cidadão tira por si.
O jornalismo independente cobra pela informação. O jornalismo de conchavo cobra pela omissão. Quando uma empresa recebe um quarto de toda a verba de propaganda de um governo, ela não é mais imprensa. Ela é parceira de negócios.
O Partido Liberal acionou o Tribunal Superior Eleitoral em 24 de junho para suspender as campanhas do governo, alegando que a atual administração ultrapassou em R$ 42 milhões o limite legal permitido para gastos com publicidade institucional no primeiro semestre de 2026. Poder Nacional A ação corre. O dinheiro, por enquanto, continua fluindo.
O contribuinte brasileiro que paga impostos, enfrenta inflação e convive com o desemprego está, sem saber, bancando a publicidade que financia a blindagem midiática do próprio governo. Não é teoria. É o extrato bancário da Secom.
Isso não é jornalismo. É negócio. E negócio com dinheiro público. E quem paga essa conta é você!
Rogerio Pires é professor, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.

