Reforma mexicana mira intimidar políticos da direita
Críticos alertam para riscos de controle político do Judiciário após reforma promovida pelo partido de Claudia Sheinbaum
CIDADE DO MÉXICO, 5 de junho de 2026 — A reforma judicial implementada pelo governo mexicano continua provocando forte reação dentro e fora do país. Entre os críticos mais contundentes está o eurodeputado e jornalista espanhol Hermann Tertsch, que classificou as mudanças promovidas pelo partido governista Morena como um passo decisivo para a concentração de poder político no México.
Em artigo publicado no jornal espanhol El Debate, Tertsch argumenta que a nova estrutura judicial mexicana, apresentada pelo governo como uma democratização do sistema de Justiça, pode produzir exatamente o efeito contrário: reduzir a independência dos tribunais e ampliar a influência do poder político sobre os juízes.
A controvérsia gira em torno da reforma que alterou profundamente a forma de escolha dos magistrados mexicanos. O governo defende que a eleição popular de juízes aproxima a Justiça da população e reduz privilégios de uma elite jurídica historicamente distante do cidadão comum. Para os críticos, porém, o processo de seleção prévia dos candidatos cria um filtro político capaz de limitar a verdadeira independência do Judiciário.
Segundo Tertsch, a questão central não estaria apenas na eleição dos magistrados, mas no fato de que os nomes submetidos ao voto popular passam antes por mecanismos de seleção controlados por estruturas ligadas ao poder político. Em sua avaliação, isso transformaria uma eleição aparentemente democrática em um processo de validação de candidatos previamente aprovados pelo sistema governante.
O jornalista espanhol vai além. Ele afirma que a reforma judicial faz parte de uma estratégia mais ampla de consolidação institucional do Morena, partido fundado pelo ex-presidente Andrés Manuel López Obrador e atualmente liderado pela presidente Claudia Sheinbaum.
Na visão dos opositores da reforma, o enfraquecimento dos mecanismos de independência judicial reduziria a capacidade dos tribunais de atuar como contrapeso ao Executivo e ao Legislativo, justamente em um momento em que o partido governista possui ampla influência sobre as instituições nacionais.
Outro ponto que tem gerado preocupação entre setores da oposição é o avanço de propostas relacionadas à chamada “defesa da soberania nacional”. Críticos afirmam que conceitos amplos de interferência estrangeira poderiam futuramente ser utilizados para questionar candidaturas, mandatos ou atividades políticas consideradas inconvenientes pelo governo.
O debate ganhou relevância internacional porque toca em uma questão que tem dividido democracias em diversas partes do mundo: até que ponto a defesa da soberania nacional pode ser utilizada para limitar a atuação de organizações estrangeiras, meios de comunicação internacionais, empresas multinacionais ou atores políticos externos.
Tertsch chegou a comparar a situação mexicana a recentes controvérsias eleitorais observadas na Europa Oriental, argumentando que governos cada vez mais fortes tendem a ampliar os critérios para definir o que constitui influência estrangeira sobre seus processos políticos.
Os defensores do governo mexicano rejeitam essas acusações. Argumentam que a reforma corrige distorções históricas do sistema judicial, combate privilégios corporativos e fortalece a legitimidade democrática dos tribunais. Também afirmam que as críticas internacionais refletem resistência de setores políticos que perderam influência após as transformações promovidas por López Obrador e continuadas por Sheinbaum.
Independentemente da posição adotada, a discussão mexicana já ultrapassou suas fronteiras e passou a ser observada com atenção por governos, juristas e analistas políticos em toda a América Latina.
O motivo é simples: o México está conduzindo um dos mais ambiciosos experimentos de reorganização do Poder Judiciário já realizados em uma democracia contemporânea. O resultado desse processo poderá servir de referência para outros países que enfrentam o mesmo dilema entre ampliar a participação popular nas instituições e preservar a independência dos órgãos responsáveis por limitar o poder político.



