RIO DE JANEIRO, 30 de setembro de 2026 — Na sexta-feira, 25 de setembro, o presidente Lula assinou a medida provisória que proíbe as bets em todo o país. Faltavam nove dias para o primeiro turno das eleições.
Na segunda-feira, em Brasília, ele garantiu que o fim das apostas “não traz nenhum prejuízo pro futebol”.
No mesmo dia, o Ministério da Fazenda corria para montar um socorro de até R$ 20 bilhões para os clubes.
Se não tem prejuízo, por que o socorro? Os números respondem melhor do que qualquer discurso. Em 2025, as casas de apostas pagaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios a quatorze dos 20 maiores clubes do país. Isso é cerca de um terço de toda a receita de marketing desse grupo.
O Flamengo, sozinho, projeta perder mais de R$ 400 milhões no orçamento do ano que vem.
Eram contratos legítimos, assinados com empresas que operavam dentro da lei, com autorização do próprio governo. De uma sexta para uma segunda, viraram pó.
Todo torcedor conhece o que vem depois de um rombo desses. Primeiro some o reforço prometido. Depois o salário atrasa. Em janeiro, o melhor jogador do time vai embora para fechar as contas. E a arquibancada paga o preço sem ter assinado nada.
A solução que parece piada
A resposta do governo tem nome pomposo: Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional. Uma linha de crédito para clubes das Séries A e B, com prazo de até 20 anos, operada pelo BNDES.
Não é perdão. Não é compensação. É empréstimo. Com juros.
A ideia é que os clubes troquem dívidas caras por dívidas mais baratas. Soa razoável até você lembrar por que eles vão precisar de tanto crédito agora.
É como se cortassem parte do seu salário e dissessem: relaxa, eu te empresto o que você perdeu. Depois você me devolve, com juros.
Esqueceram de avisar o banco
E aqui a história fica difícil de acreditar.
O banco escolhido para fazer o empréstimo não sabia de nada. Em nota enviada à imprensa, o BNDES afirmou que não participou de nenhuma discussão, interna ou externa, sobre financiar clubes de futebol.
E foi além. Lembrou que o próprio estatuto do banco proíbe esse tipo de operação.
Ou seja, o governo anunciou uma solução bilionária sem perguntar a quem teria de executá-la se isso era sequer permitido. A reunião com os clubes foi adiada. A CBF segue nas conversas procurando outro caminho.
Uma substituição impossível
Quem acompanha futebol entende a cena na hora.
O técnico tira o titular do jogo. Olha para o banco. Chama o reserva. E descobre, na beira do gramado, que o reserva está suspenso e não pode entrar.
Sai receita. Entra dívida com juros. E o banco apontado para emprestar diz que não pode.
O time fica com um a menos, e quem sofre é quem está na arquibancada.
O que isso diz sobre quem decide
Não estou discutindo aqui se as bets fazem mal. Esse é um debate sério e merece ser feito com calma, com o Congresso, com dados.
O que estou discutindo é o método. Uma medida desse tamanho, assinada às vésperas da eleição, sem plano de transição, sem conversa com os clubes e sem combinar com o banco que deveria amparar o estrago.
Não é política pública. É improviso com a caneta mais poderosa do país.
O futebol brasileiro é patrimônio de milhões de famílias. É a camisa que passa de pai para filho, o domingo no estádio, a conversa no trabalho na segunda-feira. Ele merecia mais do que uma solução que nem o banco escolhido consegue cumprir.
Todo torcedor que ama o futebol precisa saber disso.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



