ORLANDO, 20 de outubro de 2026 — Ontem, segunda-feira, o dinheiro novo do Bolsa Família começou a cair nas contas de milhões de famílias. Faltam cinco dias para o segundo turno. Em 17 de setembro, o governo anunciou o aumento e publicou o decreto no mesmo dia, em edição extra do Diário Oficial. Tudo a toque de caixa, num único dia, com a eleição já em campo. Coincidência de calendário?
Os números são estes: o piso sobe de R$ 600 para R$ 691, aumento de 15,04%, e o valor médio por família vai de R$ 675 para R$ 777. O programa atende mais de 19 milhões de lares. Quem recebe vai sentir no bolso, e é justamente por isso que a data importa.
Agora o ponto que o Planalto prefere esconder: esse aumento não estava no orçamento. O projeto que o governo enviou ao Congresso em agosto reservava R$ 157,1 bilhões para o programa em 2027 e não previa reajuste nenhum. Se a correção era uma necessidade real, por que ficou de fora da peça que o próprio governo escreveu? Porque a necessidade não era do beneficiário. Era da campanha.
O governo responde que é mera reposição da inflação, o INPC acumulado de março de 2023 a agosto de 2026. Então por que ela não veio ao longo do caminho? A inflação justificaria a correção desde o início do mandato. Durante meses o beneficiário ficou com o valor defasado, e a correção só apareceu quando a urna ficou perto. Foi uma decisão tomada às pressas, de olho na pesquisa, não no orçamento.
Reparem na sequência. Anúncio com a campanha na rua. Decreto no mesmo dia, sem debate, sem emenda, sem que o Congresso tivesse tempo de perguntar de onde sairia o dinheiro. Depósito entre os turnos, com calendário que vai até 30 de outubro, cinco dias depois da votação. Cada passo foi dado no momento que mais rende voto. Isso não é gestão. É desespero de quem precisa ganhar a qualquer custo e escolheu o caminho de enganar quem mais precisa.
E quem mais precisa é justamente quem este governo tenta iludir. O brasileiro mais humilde recebe o valor maior e vai agradecer, como é natural. Mas ninguém lhe explica que o benefício foi tirado do bolso de um orçamento que não previa o gasto, nem que a fatura volta depois da eleição, na forma de inflação, juros e corte em outras áreas.
A conta é pesada: R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões por ano a partir de 2027. Uma despesa permanente criada semanas antes da eleição. De onde sai o dinheiro? A resposta oficial é remanejamento de verbas previstas para outras despesas, principalmente da Previdência. Remanejar é tirar de um lugar para pôr em outro, e essa explicação nunca vem acompanhada de nome e endereço de quem perde. Segundo a Gazeta do Povo, há estimativas de que o governo possa precisar contingenciar até R$ 57,7 bilhões em 2027.
Que fique claro o que eu defendo. Quem depende do programa precisa de renda, e o país precisa de uma política que leve o brasileiro ao emprego. Isso se faz com crescimento, com orçamento honesto e com regras que valem o ano inteiro, não só em outubro. O governo Lula usou o programa como instrumento de calendário e deixou a fatura para o Congresso e para o próximo presidente.
A pergunta que fica no ar é simples. Se o reajuste fosse só justiça, teria nascido em 24 horas, fora do orçamento, a poucos dias da votação? Cabe ao eleitor responder na urna no domingo, olhando não só para o valor que entrou na conta, mas para quem escolheu o dia de depositá-lo e tentou comprar com ele o seu voto.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



