Sensação de carestia: O supermercado está caro, só que a culpa é da sua cabeça, segundo a Globo
Miriam Leitão afirma que índices mostram queda, mas ela mesma admite que “tá difícil fazer todas as compras”
RIO DE JANEIRO, 12 de agosto de 2026 — A economista e comentarista da Globo Miriam Leitão decidiu, nesta terça-feira, dar uma aula inédita de economia comportamental ao vivo no Bom Dia Brasil. O tema da disciplina, batizada informalmente aqui na Timeline de “Malabarismo Retórico Avançado”, é simples: como explicar para o brasileiro que o problema não é o preço, é a cabeça dele.
A frase de abertura já mereceria plateia de pé: “os números nem sempre coincidem com a sensação.” Em seguida, a professora detalhou o raciocínio. “Às vezes você tem a sensação de preço alto, de carestia, mesmo quando os índices mostram queda.” Tradução livre: o IPCA de julho veio em 0,07%, o acumulado em 12 meses ficou em 4,44%, abaixo do teto da meta, e se você ainda assim sai do mercado com o carrinho meio vazio e a carteira mais vazia ainda, o problema é de ordem psicológica, não orçamentária.
E foi aí que a aula desandou para o melhor lado possível, o lado involuntariamente cômico. Poucos minutos depois da tese da “sensação”, a própria Miriam Leitão emendou: “mas, em geral, tá difícil de fazer todas as compras.” Ou seja, a sensação de carestia é imaginária, exceto quando é real. A ciência econômica agradece a contribuição.
Confesso que não vou fingir surpresa. É o mesmo manual que já apareceu antes na carreira da comentarista, o de explicar que a inflação “percebida” é sempre mais alta entre os mais pobres, como se fosse um detalhe de rodapé e não o resumo da tragédia. Curiosamente, a percepção equivocada nunca aparece do lado de quem fatura por explicar a economia na telinha. É sempre o consumidor no caixa do supermercado quem está com a régua errada.
Vale reconhecer o mérito técnico do argumento, porque ele existe, e fingir o contrário só para arrancar risada fácil seria tão desonesto quanto o malabarismo que este texto critica. É verdade que inflação mede variação, não nível. É verdade que uma taxa menor não devolve o preço do quilo do tomate ao patamar de dois anos atrás, e quem diz o contrário está mentindo tanto quanto quem finge que o aperto no bolso é imaginação. Batata, tomate e café caíram em julho, o grupo alimentação recuou 0,67%, isso é dado, não sensação. O problema não é a aula de estatística. O problema é a conclusão que vem grudada nela, a de que quem sente o aperto no bolso está, no fundo, com um problema de interpretação e não de renda.
Porque não é sensação pagar dívida em atraso com juro de cartão. Não é sensação ter salário represado enquanto a conta de luz, o aluguel e o plano de saúde sobem em ritmo próprio, fora do IPCA. E não é sensação sair do mercado com metade do carrinho de antes pelo mesmo valor, ainda que a variação mensal tenha desacelerado. Existe uma diferença enorme entre “a inflação está caindo” e “a vida ficou mais barata”, e faz parte do ofício de quem comenta economia na TV mais assistida do país explicar essa diferença sem transformar a insatisfação do telespectador num transtorno de percepção.
No fim, restou a própria comentarista resumindo, sem querer, o furo da própria tese. Se em geral está difícil fazer todas as compras, então em geral a sensação de carestia bateu ponto com a realidade. O exercício de lógica neste caso fica por conta de quem assiste.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



