STJ: venda de decisões envolvia disputa de fazendas e pagamentos milionários, aponta PGR
Denúncia da PGR aponta rede de influência que negociava resultados judiciais, movimentava milhões de reais e tinha acesso antecipado a decisões de processos estratégicos
BRASÍLIA, 16 de junho de 2026 — A denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal lança luz sobre o que pode se tornar um dos mais graves escândalos da história recente do Judiciário brasileiro. Segundo a investigação, um grupo formado por empresários, advogados e servidores com acesso aos bastidores do Superior Tribunal de Justiça teria transformado decisões judiciais em moeda de negociação, oferecendo influência sobre processos milionários em troca de pagamentos vultosos.
O caso ganhou força após a análise do celular do advogado Roberto Zampieri, assassinado em Cuiabá no fim de 2023. As mensagens encontradas pelos investigadores revelaram uma rede de contatos que, segundo a acusação, operava dentro da estrutura judicial para obter informações privilegiadas e antecipar o conteúdo de decisões antes mesmo de sua publicação oficial.
No centro do esquema aparece o empresário Andreson de Oliveira Gonçalves, apontado pela PGR como o elo entre clientes dispostos a pagar por resultados favoráveis e pessoas com acesso a gabinetes do STJ. As conversas analisadas indicam que minutas de decisões circulavam entre os integrantes do grupo como prova da influência exercida sobre os processos.
A investigação descreve um ambiente em que disputas judiciais envolvendo fazendas, patrimônios milionários e cobranças de grande valor se transformavam em oportunidades de negócios. Em um dos casos analisados, a disputa pela posse de terras no Mato Grosso teria sido acompanhada por cobranças e repasses financeiros destinados a garantir a manutenção de uma decisão favorável.
Outro episódio chama ainda mais atenção pelo volume de recursos envolvidos. Segundo a denúncia, proprietários rurais que buscavam reverter derrotas judiciais teriam sido convencidos de que o grupo possuía capacidade de influenciar julgamentos em instâncias superiores. A promessa de acesso privilegiado ao tribunal teria resultado em pagamentos que de acordo com os investigadores, alcançaram aproximadamente R$ 7,4 milhões.
As apurações também apontam métodos de pressão utilizados para ampliar as cobranças. Em uma das situações descritas, documentos falsos teriam sido apresentados a um produtor rural para convencê-lo de que corria o risco de ser preso caso não efetuasse novos pagamentos. O objetivo seria criar um cenário de urgência e medo capaz de garantir vantagens financeiras aos envolvidos.
Embora a denúncia descreva um esquema sofisticado de influência e comercialização de informações privilegiadas, a Procuradoria afirma não ter encontrado elementos que indiquem participação direta das ministras cujas decisões aparecem nos processos investigados. A suspeita recai sobre intermediários e assessores que teriam explorado a proximidade com os gabinetes para obter acesso a informações sigilosas e transformá-las em instrumento de negociação.
A gravidade do caso ultrapassa os valores milionários mencionados nos autos. O que está em jogo é a credibilidade de uma das mais importantes cortes do país. Se confirmadas, as acusações revelam a existência de uma estrutura paralela capaz de explorar os mecanismos internos da Justiça para beneficiar interesses privados, comprometendo a confiança da sociedade na imparcialidade das decisões judiciais.
Independentemente do desfecho processual, a investigação já expõe um cenário alarmante: a suspeita de que, nos bastidores de tribunais responsáveis por julgar alguns dos casos mais relevantes do país, decisões judiciais possam ter sido tratadas como ativos negociáveis.
A apuração coloca sob escrutínio a integridade das instituições encarregadas de garantir a aplicação da lei e a igualdade de todos perante a Justiça.



