Sua demissão pode estar nessa lista
Calçados, madeira, máquinas, papel e plástico entram na mira dos EUA. Milhares de empregos qualificados estão por um fio
RIO DE JANEIRO, 16 de julho de 2026 — Marque na agenda: terça-feira, 22 de julho. É o dia em que a conta chega.
A partir dessa data, os Estados Unidos passam a cobrar uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. A decisão foi anunciada na quarta-feira (15) pelo governo Trump, depois que o USTR, o escritório comercial americano, concluiu a investigação aberta contra o Brasil com base na Seção 301 da legislação de comércio dos EUA.
O tamanho do estrago? A Confederação Nacional da Indústria calcula que a sobretaxa atinge US$ 11 bilhões em exportações brasileiras por ano, algo em torno de R$ 60 bilhões ao câmbio atual. Mais de um quarto de tudo o que vendemos para o nosso segundo maior mercado.
E pode piorar. No mapa completo do risco, traçado pela própria CNI, são 4.187 produtos e US$ 14,9 bilhões na mira, perto de R$ 80 bilhões, caso Washington confirme também a sobretaxa de 12,5% da investigação sobre trabalho forçado, ainda em análise. Somando tudo, há produto brasileiro que pode pagar até 37,5% para entrar nos Estados Unidos.
Quem paga essa conta não é um número numa planilha. É gente.
Estão na lista molduras de madeira, granito, etanol, açúcar bruto, carne suína, pasta de madeira, calçados, vestuário, papel, produtos de plástico, máquinas e equipamentos industriais. Bens intermediários e manufaturados, na maioria. Segundo a CNI, 62% dos itens ameaçados são insumos que alimentam cadeias longas de produção. Cada contêiner desses produtos carrega salários de São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Pense no que isso significa na ponta. A fábrica de calçados do Vale dos Sinos que vive do mercado americano. A serraria do interior do Paraná. A metalúrgica mineira que fornece peças para máquinas. Quando o produto fica 25% mais caro da noite para o dia, o comprador americano procura outro fornecedor. E o emprego qualificado que demorou décadas para ser construído desaparece em meses.
Para dar dimensão ao valor em jogo, com os R$ 60 bilhões que a tarifa coloca em risco por ano, daria para construir cerca de 3 mil escolas novas ou mais de 300 hospitais de porte médio no Brasil. É esse o tamanho da riqueza que está prestes a evaporar.
E o governo brasileiro? Fala em “analisar o teor da decisão”. Estuda acionar a Lei da Reciprocidade. Aposta na continuidade das negociações diplomáticas. Tudo isso depois de um ano inteiro de crise, iniciada ainda em julho de 2025, com prazos conhecidos, audiências públicas marcadas com antecedência e alertas repetidos da indústria.
O sentimento é de que o governo chegou ao dia 22 de julho como quem chega atrasado ao próprio julgamento: sem acordo fechado, sem plano de contingência para os setores atingidos e sem uma estratégia clara para proteger o trabalhador brasileiro. Diplomacia se mede por resultado. E o resultado, até aqui, é tarifa em vigor na semana que vem.
Vale registrar: a mobilização de quem produz funcionou onde o governo não alcançou. Foram os setores produtivos, nas audiências do USTR, que ajudaram a arrancar 429 novas exceções da lista final, salvando itens como o ferro-gusa e o hidróxido de alumínio. A indústria correu. Brasília assistiu.
Depois da tarifa, o roteiro é conhecido: queda nas exportações, demissões, indústria desvalorizada e mais um pedaço do Brasil produtivo entregue à concorrência internacional. De forma resumida, ou o país muda de rumo, e rápido, ou quem para de vez é o Brasil.
O leitor que discorda tem todo o direito. Mas os números estão aí, publicados pela CNI e pelo próprio governo americano. A partir de terça-feira, deixam de ser projeção e viram realidade.
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Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, D.H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




“United States, China, Europe. Three doors slammed in Brazil's face in the same year.”