RIO DE JANEIRO, 02 de setembro de 2026 —A fotografia parece inocente. Toffoli de camiseta verde e rosa, cercado por gente do samba sorrindo na quadra da Mangueira. Um sábado no Rio.
Nada demais — até você olhar quem está em volta.
No dia 29 de agosto, um ministro do Supremo Tribunal Federal foi à Estação Primeira acompanhar a semifinal da disputa do samba-enredo de 2027. Posou ao lado de Ivo Meirelles e foi recebido pela presidente da escola, Guanayra Firmino. Ir à Mangueira não é crime, gostar de samba não é problema. Mas Toffoli não é um cidadão qualquer: ocupa uma das onze cadeiras mais poderosas da República. E foi se sentar exatamente no meio de uma teia de inquéritos, disputa judicial, apuração criminal em curso e dinheiro público sob questionamento.
O homem ao lado do ministro
Ivo Meirelles não é figurante nessa história. Presidiu a Mangueira a partir de abril de 2009.
Em outubro de 2011, foi indiciado no inquérito 017/1045/2011, da 17ª DP (São Cristóvão), por associação para o tráfico de drogas no Morro da Mangueira. O inquérito nasceu de denúncia anônima recebida pela Ouvidoria do Ministério Público do Rio, segundo a qual ele teria sido imposto na presidência da escola pelos traficantes Alexander Mendes da Silva, o Polegar, e Vinicius de Lima Pereira, o Chevette. A apuração sustentava que, em troca, arrecadaria cerca de R$ 150 mil por mês para sustentar criminosos, sobretudo os presos.
Ivo sempre negou. Disse que estava incomodando poderes internos da escola e que virou alvo por isso. Indiciamento não é condenação — mas também não é nada.
Em fevereiro de 2013, o Ministério Público pediu à Justiça a quebra dos sigilos bancário e fiscal dele e da própria Mangueira. O Banco Central havia localizado seis contas em nome de Meirelles e 54 em nome da escola, todas sob sua representação.
Em depoimento, Ivo admitiu conhecer Polegar e também Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha — que cumpriu dezesseis anos de prisão pela acusação de ter chefiado o tráfico na Mangueira. Alegou que os conhece desde a infância, todos criados na mesma favela. Vale registrar: Tuchinha aparece creditado, como “Francisco do Pagode”, entre os autores do samba da Mangueira de 2008.
O histórico é mais antigo. Segundo o levantamento documental que analisei, Ivo era vice-presidente em 1994, quando cerca de trinta traficantes armados com fuzis e metralhadoras ocuparam a quadra durante a apuração do Carnaval, conforme registro da Folha de S.Paulo. E, anos depois, à frente da bateria, comandou a reforma de quatro camarotes — a própria direção da escola confirmou. Em 2008 aqueles espaços viraram caso de polícia: a 17ª DP passou a investigar se o tráfico havia bancado as obras, e identificou uma ligação entre uma casa nos fundos da quadra e a área dos camarotes, suspeita de servir de acesso à comunidade. Ivo sustenta que o dinheiro veio dos “Amigos da Bateria”. Chininha, então presidente, admitiu em depoimento que traficantes frequentavam os ensaios.
É esse o homem que aparece ombro a ombro com um ministro do Supremo.
A anfitriã
Guanayra Firmino foi reeleita em 11 de março de 2025 e conduzirá a escola até o centenário, em 2028. O edital do pleito havia sido publicado em 27 de fevereiro.
Doze dias entre o edital e a votação.
É exatamente esse o objeto da ação judicial que discute o descumprimento do prazo mínimo previsto no estatuto. Houve decisão inicial reconhecendo vício formal em tutela provisória e, depois, efeito suspensivo no recurso da escola. Apenas a chapa da situação chegou a se registrar, embora documentos mostrem que outros associados haviam retirado material eleitoral — havia movimento de candidatura.
O Coletivo Transparência Mangueira formalizou notícia-crime perante o GAECO/MPRJ relatando interferência de organização criminosa no certame. A apuração está em curso, sob o procedimento nº 2026.00744910. A presidência nega qualquer interferência e não há conclusão pública do Ministério Público.
Mas o quadro é este: o ministro foi recebido com festa por uma dirigente cuja permanência no cargo é objeto simultâneo de ação judicial e de apuração criminal.
O dinheiro que passa por Marcelo Freixo
Freixo comemorou publicamente a reeleição de Guanayra, celebrando que ela levaria a escola ao centenário. Aliança política não é irregularidade. O problema é o que veio junto.
Ele é autor da emenda parlamentar nº 41600008, de R$ 1.140.446, destinada à Mangueira — apresentada quando ainda era deputado federal, cargo que deixou em 12 de janeiro de 2023 para presidir a Embratur, onde permaneceu até março de 2026. O recurso originou o Termo de Fomento nº 941311/2023, com o Ministério da Cultura, para um projeto de memória digital da escola: 2.500 entrevistas, 20 mil fotografias digitalizadas, 75 mil recortes e 250 fitas VHS.
O levantamento identificou doze entrevistas. Menos de meio por cento da meta, com ausência ou insuficiência de comprovação das demais entregas. O instrumento chegou a figurar no Transferegov como “Inadimplência Efetiva”.
Quem executa um termo de fomento é a entidade, não o parlamentar que indicou o recurso — isso precisa ficar claro. Mas quem destina R$ 1,14 milhão de dinheiro público tem o dever de acompanhar e cobrar. E o silêncio de quem indicou, diante de uma execução desse tamanho, é uma escolha.
Menos de um mês depois da reeleição de Guanayra veio o segundo capítulo. Em abril de 2025, o governo do Amapá firmou termo de fomento de R$ 10 milhões com a Associação Cultural Samba Verde e Rosa, ligada à escola, para bancar o enredo de 2026 em homenagem ao estado. O contrato foi assinado pela secretária de Cultura Clícia Vieira, irmã do governador Clécio Luís, aliado de Davi Alcolumbre — e só foi publicado no Diário Oficial em junho. Até outubro, R$ 6 milhões já haviam sido pagos.
O dinheiro é do Amapá, não de Freixo. Mas a própria secretária amapaense atribuiu a escolha do tema a uma conversa entre Alcolumbre e Freixo, então presidente da Embratur. Freixo confirmou ter intermediado o contato com a direção da escola, negando ter participado de tratativas de patrocínio. Alcolumbre nega ter destinado ou alocado qualquer recurso.
Fica de pé, ainda assim, o essencial: o presidente de um órgão federal de turismo aproximou um governo estadual de uma escola de samba cuja direção é sua aliada declarada, e cuja gestão já respondia por questionamentos na execução de uma emenda de sua própria autoria. Some-se a isso a relação, também registrada na documentação, entre a Embratur e o Camarote Verde e Rosa na Sapucaí.
O que Toffoli precisa explicar
Não estou acusando o ministro de crime. Cobro dele algo que deveria ser elementar em quem julga o país: prudência.
Toffoli sabia que Ivo Meirelles fora indiciado por associação para o tráfico? Sabia das investigações sobre os camarotes? Sabia que a eleição da dirigente que o recebia é alvo de apuração do Ministério Público por suspeita de interferência de organização criminosa? Quem o convidou? Quem intermediou a presença? Houve alguma avaliação prévia da sua assessoria?
As duas respostas possíveis são ruins. Se sabia, terá de explicar por que julgou adequado emprestar a imagem do Supremo àquela noite. Se não sabia, temos um ministro da mais alta corte do país circulando sem que ninguém em volta perceba o óbvio.
E que fique claro: o problema não é a Mangueira. A escola é maior que qualquer presidente, político ou inquérito. É Cartola, é Nelson Cavaquinho, é Dona Zica, é uma comunidade inteira de gente honesta que não pode ser confundida com os antecedentes de indivíduos determinados. É por respeito a essas pessoas que as perguntas precisam ser feitas.
Independência judicial não se resume a decidir sem receber ordens. Envolve preservar a confiança pública de que relações pessoais e políticas não pesam na toga.
A fotografia é pública. Os inquéritos são documentados. O dinheiro é público. O cargo é público. Numa democracia, quanto maior o poder, menor deveria ser a resistência a responder. Toffoli e Freixo têm a palavra.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



