Tren de Aragua expande atuação no Norte do Brasil e transforma Roraima em corredor do crime
Facção venezuelana classificada como organização terrorista pelos Estados Unidos consolida presença na fronteira brasileira, explora imigrantes, atua no garimpo ilegal e mantém alianças com PCC e CV
RORAIMA, 10 de junho de 2026 — A expansão da facção venezuelana Tren de Aragua em território brasileiro tem acendido um alerta crescente entre autoridades de segurança e especialistas em crime organizado. Originado em uma prisão da Venezuela e hoje presente em diversos países da América Latina, o grupo criminoso consolidou sua atuação principalmente em Roraima, aproveitando-se da fragilidade da fronteira e do intenso fluxo migratório vindo do país vizinho.
Classificado pelo governo dos Estados Unidos como organização terrorista estrangeira, o Tren de Aragua é apontado como responsável por atividades que vão do tráfico de drogas e armas à exploração sexual, extorsão, sequestros e mineração ilegal.
O avanço da facção ganhou novos contornos no início deste ano, quando a Polícia Civil de Roraima localizou um cemitério clandestino em uma área de mata de Boa Vista. Pelo menos nove corpos foram encontrados no local, a maioria de cidadãos venezuelanos. Segundo as investigações, testemunhas relataram que integrantes do Tren de Aragua estavam envolvidos nos crimes e utilizavam a região para ocultar vítimas executadas pelo chamado “tribunal do crime”.
Facção nasceu em prisão venezuelana
O grupo surgiu dentro do Centro Penitenciário de Aragua, conhecido como Tocorón, na Venezuela. Durante anos, a prisão funcionou praticamente sob o controle dos próprios criminosos, que transformaram o local em quartel-general para a expansão de suas atividades.
Embora o governo de Nicolás Maduro tenha retomado o controle da unidade em 2023, especialistas apontam que as principais lideranças conseguiram escapar antes da operação, preservando recursos financeiros, armamentos e redes de influência.
Atualmente, uma das principais bases da organização estaria localizada em Las Claritas, cidade próxima à fronteira brasileira, de onde partiriam ordens para células instaladas em território nacional.
Fronteira vulnerável favorece expansão
A região de Pacaraima, principal porta de entrada terrestre entre Venezuela e Brasil, tornou-se peça estratégica para as operações da facção.
A extensa área de mata e a existência de inúmeras trilhas clandestinas permitem a circulação de armas, drogas, combustível, ouro ilegal e pessoas sem maiores dificuldades. Segundo investigadores, armamentos desviados das forças de segurança venezuelanas entram regularmente no Brasil por essas rotas informais.
Além do tráfico, a facção encontrou no garimpo ilegal uma importante fonte de renda. O grupo atua no fornecimento de combustível, equipamentos e logística para áreas de mineração clandestina, além de controlar parte das atividades relacionadas à exploração de ouro na região de fronteira.

Aliança com PCC e Comando Vermelho
As investigações também apontam para uma crescente cooperação entre o Tren de Aragua e as maiores organizações criminosas brasileiras.
Segundo autoridades de segurança, há indícios de parcerias para o transporte de drogas oriundas da Colômbia, circulação de armamentos e utilização de rotas compartilhadas de distribuição.
Roraima passou a funcionar como um corredor estratégico para o envio de cocaína e armas para outros estados brasileiros, especialmente Amazonas, Rio de Janeiro e São Paulo.
Especialistas afirmam que o contato entre integrantes das facções foi facilitado pela convivência em presídios e pelos interesses econômicos comuns ligados ao narcotráfico e ao garimpo ilegal.
Imigrantes venezuelanos estão entre as principais vítimas
Embora a organização tenha ampliado sua atuação criminosa, os próprios imigrantes venezuelanos figuram entre os mais afetados por sua presença.
Relatos colhidos por autoridades e organizações humanitárias indicam que membros da facção se infiltraram em rotas migratórias, explorando pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
Há denúncias de recrutamento forçado para atividades ilícitas, cobrança de taxas ilegais, exploração sexual de mulheres e utilização de trabalhadores em condições análogas à escravidão em áreas de garimpo.
Muitos migrantes chegam ao Brasil fugindo da crise econômica e política venezuelana, mas acabam novamente submetidos à violência e ao controle de grupos criminosos.
Marca registrada: terror e brutalidade
A violência extrema tornou-se uma das principais características do Tren de Aragua.
Autoridades de Roraima relatam diversos casos de corpos mutilados, decapitados ou abandonados em áreas isoladas da capital Boa Vista. Em muitos episódios, as vítimas eram venezuelanas executadas como forma de punição ou demonstração de poder.
Investigadores afirmam que a facção importou para o Brasil os métodos utilizados na Venezuela para controlar territórios e intimidar rivais.
Apesar da redução dos índices gerais de homicídios em Roraima nos últimos anos, as forças de segurança continuam tratando a presença da organização como uma das maiores ameaças à estabilidade da região de fronteira.
Pressão por controle migratório e reforço da fronteira
Diante do avanço das facções estrangeiras, autoridades estaduais defendem medidas mais rígidas de controle migratório e fortalecimento da fiscalização na fronteira.
O governo de Roraima tem cobrado do governo federal maior presença das forças de segurança na divisa com a Venezuela, além da ampliação dos mecanismos de identificação de antecedentes criminais de estrangeiros que ingressam no país.
Para especialistas, o crescimento do Tren de Aragua evidencia como o crime organizado moderno opera além das fronteiras nacionais, explorando crises migratórias, fragilidades institucionais e áreas de baixa presença estatal para expandir sua influência.
Enquanto a organização continua avançando pela América Latina, a fronteira norte do Brasil permanece como um dos pontos mais sensíveis dessa disputa entre Estado e crime transnacional
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