Trump promete US$ 1 bilhão à Colômbia após posse de aliado de direita
Abelardo de la Espriella adere à aliança de segurança dos Estados Unidos e anuncia “guerra total” contra cartéis; guinada amplia o isolamento da esquerda na América Latina
ORLANDO, 9 de agosto de 2026 — Poucas horas depois de Abelardo de la Espriella assumir a Presidência da Colômbia, os Estados Unidos anunciaram um pacote de segurança de US$ 1 bilhão para o país. Admirador declarado de Donald Trump, o novo líder colombiano tomou posse prometendo uma “guerra total” contra cartéis, guerrilhas e outras organizações armadas.
O Departamento de Estado americano afirmou que os recursos ajudarão os dois governos a alcançar “objetivos compartilhados”, como o combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas e à imigração ilegal.
O anúncio marca uma mudança brusca nas relações entre Bogotá e Washington. Durante o governo de Gustavo Petro, Trump criticou repetidamente a política colombiana de segurança e responsabilizou o país pelo fluxo de drogas e migrantes em direção aos Estados Unidos. De la Espriella anunciou que a Colômbia passará a integrar o Escudo das Américas, parceria de segurança criada por Trump.
Washington celebrou a adesão e disse que a agenda pró-crescimento do novo presidente abre espaço para ampliar o comércio e aprofundar os laços econômicos entre os países. De la Espriella também prometeu fortalecer a cooperação militar com Estados Unidos e Israel.
A aproximação com o governo israelense representa outra ruptura com o esquerdista Petro, que cortou relações diplomáticas com Israel devido à ofensiva em Gaza e se tornou uma das vozes mais contundentes da América Latina em defesa do terrorismo.
O método Trump para a América Latina
O apoio financeiro à Colômbia reforça uma política adotada por Trump em seu segundo mandato: fortalecer governos sérios próximos e punir os adversários.
A Argentina de Javier Milei recebeu um socorro de US$ 20 bilhões do Tesouro americano. Trump chegou a dizer que avaliaria de maneira muito diferente o apoio ao país caso o libertário fosse substituído por um presidente de esquerda.
No campo oposto, Cuba tem sido alvo de ameaças recorrentes. Trump indicou que o governo comunista da ilha poderia receber tratamento semelhante ao dispensado ao regime venezuelano.
O comunista Petro criticou duramente a influência americana na região — sobretudo após a captura do terrorista Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, levados aos Estados Unidos para responder a acusações relacionadas ao narcotráfico. A queda do chefe comunista também abriu caminho para que empresas americanas voltassem a investir em reservas de petróleo da Venezuela.
“A era do Tigre”
Advogado, empresário milionário e comunicador hábil, Abelardo de la Espriella construiu sua imagem política em torno do apelido “El Tigre”.
Embora tenha vínculos antigos com setores influentes da sociedade colombiana, apresentou-se como um outsider disposto a governar sem “os suspeitos de sempre” — referência às elites políticas corruptas que dominaram o país antes da eleição de Petro.
O novo presidente escolheu prestar juramento em Cali, no oeste colombiano, em vez da capital, Bogotá. O gesto procurou reforçar a ideia de ruptura com o poder centralizado e com as cerimônias tradicionais da política nacional.
De la Espriella entrou oficialmente na disputa um mês depois de outro candidato conservador ser assassinado. Durante a campanha, apareceu com frequência protegido por vidro blindado e usando colete à prova de balas — algumas vezes coberto pela camisa da seleção colombiana.
Naturalizado americano em 2023, ele viveu e trabalhou durante anos em Miami. Antes de entrar para a política eleitoral, tornou-se conhecido como advogado de defesa de paramilitares ligados ao narcotráfico — criminosos semelhantes àqueles que agora promete perseguir com “mão de ferro”.
Na primeira fala oficial como presidente, feita diante de militares, prometeu esmagar grupos insurgentes, reconstruir o país e defender a democracia “pela razão ou pela força”.
“Não haverá um único lugar em nosso território onde os criminosos possam se sentir seguros”, declarou. Segundo ele, na “era do Tigre”, o Estado colombiano será “contundente e decisivo” contra o crime.
A retórica aproxima de la Espriella de presidentes como Nayib Bukele, de El Salvador, e Daniel Noboa, do Equador. Ambos recorreram às Forças Armadas, à ampliação dos poderes de segurança e a regimes de exceção para enfrentar organizações criminosas — políticas populares em parte da população, mas criticadas por entidades de direitos humanos.
O fim da “paz total”
A estratégia anunciada pelo novo governo é o oposto da “paz total” defendida por Gustavo Petro.
O projeto do ex-presidente priorizava negociações com guerrilhas e organizações armadas, além de incentivos para que agricultores deixassem de cultivar coca. A proposta pretendia atacar simultaneamente as dimensões sociais, econômicas e militares de um conflito que envolve o Estado, grupos insurgentes, paramilitares e cartéis há décadas.
Críticos afirmam que o plano fracassou. O número de integrantes de grupos armados cresceu nos últimos anos, enquanto confrontos entre facções rivais na fronteira com a Venezuela obrigaram dezenas de milhares de pessoas a abandonar suas casas.
De la Espriella promete substituir negociação por confronto direto. O pacote americano oferece recursos para iniciar essa ofensiva, mas também aumenta a influência de Washington sobre a política de segurança colombiana.
A direita avança pelo continente
A posse do novo presidente colombiano integra uma guinada mais ampla à direita na América Latina, alimentada pela insatisfação econômica e pelo medo da violência.
Com Abelardo na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru, Luiz Inácio Lula da Silva passa a contar com menos aliados políticos na região. O presidente brasileiro também enfrentará uma disputa doméstica polarizada em outubro contra Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e integrante de uma família politicamente próxima de Trump.
A cerimônia de posse em Cali deu dimensão internacional ao novo alinhamento. Entre os convidados estavam o procurador-geral americano Todd Blanche e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acompanhado pelo chefe da Conmebol.
A Colômbia inicia, assim, um governo construído sobre duas promessas inseparáveis: recuperar o controle territorial pela força e restaurar uma parceria privilegiada com os Estados Unidos.
Trump já apresentou sua contrapartida. O primeiro bilhão de dólares chegou antes mesmo de o novo presidente completar um dia no cargo.



