RIO DE JANEIRO, 5 de setembro de 2026 — Imagine que você vai à delegacia registrar uma queixa contra o seu vizinho. O delegado ouve tudo, concorda que o caso é grave, olha nos seus olhos e diz: eu abro o inquérito do seu vizinho, que é meu amigo, sim, mas só se você aceitar que eu abra também contra um outro vizinho, que não é meu amigo.
Você sairia de lá com a sensação de ter sido atendido ou de ter sido chantageado?
É exatamente este cenário que explica o que aconteceu no Senado nesta semana.
O recado que circulou nos corredores
Segundo o G1, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, fez circular entre colegas do Congresso um recado simples: se a pressão para abrir o processo de impeachment de Alexandre de Moraes se tornar insustentável, ele autoriza também o processo contra André Mendonça.
Nos bastidores, os senadores já batizaram a manobra. Chamam de “impeachment cruzado”. E, segundo a mesma apuração, o efeito foi imediato: aumento no descrédito do atual presidente do Senado Federal.
Todo mundo entendeu o recado. Ninguém precisou soletrar.
A conta que não fecha
Agora olhe o tamanho da desproporção entre os dois lados dessa balança.
Contra Moraes, um levantamento do Poder360 aponta 55 pedidos de impeachment protocolados no Senado desde 4 de janeiro de 2021, data em que o próprio Alcolumbre arquivou tudo o que tramitava contra ministros do STF. O ministro é seguido de longe por Gilmar Mendes, com 15, e Dias Toffoli, com 12. Ao falar com a imprensa, Alcolumbre citou números ainda maiores: 109 pedidos contra os dez ministros, sendo 66 deles contra Moraes.
Cinquenta e cinco. Ou sessenta e seis, pela contagem do próprio presidente do Senado. Cinco anos de petições empilhadas numa gaveta que só ele pode abrir.
E contra Mendonça? Contra ele, existe “motivação” e “vontade” de se protocolar o primeiro. Nenhum documento formalmente assinado e protocolado foi apresentado. Nenhum, simplesmente nenhum!
Uma ameaça feita com papel em branco
Aqui a história fica desconfortável de contar.
A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, apurou que senadores aliados de Alcolumbre defendem deflagrar o processo contra Mendonça e que o presidente do Senado já discutiu a hipótese com interlocutores de confiança. O argumento seria o de que Mendonça mandou investigar indevidamente autoridades como o próprio Alcolumbre, de quem é desafeto.
Só que, segundo a mesma apuração, ainda não se decidiu quem tomaria a iniciativa de formalizar a peça. Cogita-se, inclusive, que ela parta de alguém de fora do Congresso Nacional.
Repare no que isso significa. Não há documento. Não há assinatura. Não há protocolo. Não há sequer um denunciante definido. Existe uma intenção discutida em conversas reservadas, que pode nunca se materializar.
E é com esse papel em branco que se ameaça equilibrar a balança contra cinco anos de petições formais.
De um lado, processos com número, data, autor e enquadramento legal, alguns deles subscritos por dezenas de senadores. Do outro, uma hipótese de bastidor.
Chamar as duas coisas de “impeachment cruzado” é fingir que pesam o mesmo.
E tem mais. Segundo o Brasil 247, um blog reconhecidamente petista, a avaliação entre os aliados é de que o melhor seria não levar o caso ao plenário, porque, ao pautar o impeachment de Mendonça, Alcolumbre perderia as condições políticas de continuar segurando os pedidos contra Moraes.
Ou seja: o instrumento não serve para julgar ninguém. Serve para não julgar ninguém.
De onde veio a senha
A sequência dos fatos ajuda a entender o tabuleiro.
Na terça-feira, 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que expôs a relação entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, preso desde março. No mesmo dia, a oposição protocolou novos pedidos contra Moraes.
Na noite de quinta-feira, 3, Moraes reagiu. Pediu a Edson Fachin a apuração da conduta de Mendonça, apontando indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na relatoria da Operação Sem Desconto e da Compliance Zero. Citou nominalmente, entre os alvos supostamente direcionados “por motivos pessoais e políticos”, ele mesmo e Davi Alcolumbre.
E convém olhar com lupa a peça que sustenta tudo isso. O documento que Moraes usou para imputar crimes a um colega de Corte tem 50 páginas, foi impresso em papel sem timbre da Polícia Federal, não é assinado, não traz data de produção e não identifica os analistas responsáveis. É, na definição técnica, um documento apócrifo. Pior: o próprio relatório se auto desqualifica. Ele adverte que não tem valor probatório, classifica como de “confiança baixa” justamente a linha de que Mendonça teria investigado Moraes, admite que algumas conclusões vão além do que os dados comprovam e chega a registrar alerta de “suspeição reversa”, porque a PF se reconhece como parte interessada. Nada disso apareceu no despacho. E há mais: o Partido Novo pediu o arquivamento da investigação sustentando haver evidências de que o texto foi redigido por inteligência artificial, suspeita que também circula entre juristas ouvidos pela Gazeta do Povo. É uma suspeita, não uma conclusão, e assim precisa ser tratada. Mas o simples fato de ela ser levantada diz tudo sobre o que temos em mãos: um material preliminar, sem autor identificado, sem data, sem assinatura e sem valor de prova, transformado em fundamento para acusar um ministro do Supremo e, agora, para ameaçar o Senado com um impeachment.
Foi essa menção que o Senado leu como senha. Na sexta-feira, 4, Fachin retirou o pedido do inquérito das fake news, deu cinco dias para PGR e Mendonça se manifestarem e puxou os dois casos para a Presidência da Corte.
Vale ressalta portanto que o documento no centro de tudo isso é um suposto relatório de inteligência, peça sem valor probatório, cujas características são incomuns para um relatório oficial da PF.
O que não pode
Quer analisar uma denúncia contra Mendonça? Analise. Com fatos, provas e devido processo legal.
Quer analisar as 55 denúncias contra Moraes? Analise. Uma por uma, pelo mérito de cada uma.
O que não pode existir é a condicionante. O que não pode existir é “se cair o meu, cai o seu”. Porque no instante em que o impeachment de um ministro passa a depender do impeachment de outro, ele deixa de ser um instrumento de responsabilização e vira o que sempre foi proibido de ser: uma moeda.
Nunca, em toda a história do país, um pedido de impeachment contra ministro do Supremo foi aprovado. Nenhum. Cento e nove petições, dez ministros, zero julgamentos.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de denúncias. Talvez o problema seja quem guarda a chave da gaveta.
E o que ele cobra para abrir.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.



