RIO DE JANEIRO, 25 de setembro de 2026 — Passava da meia-noite quando a GloboNews decidiu admitir o erro. Na Edição da Meia-Noite desta sexta-feira, a apresentadora Marcelly Setúbal leu uma nota curta e terminou com uma frase que quase nunca se ouve na televisão brasileira: “Nós pedimos desculpas.”
Repare em quem leu. Não foi Maria Cristina Fernandes, a comentarista que deu a informação falsa. Foi uma colega, de madrugada, num horário em que o país já estava dormindo. O erro foi cometido em horário nobre. O perdão foi pedido na calada da noite.
Uma santa usada como munição
Na quinta-feira, às 20h13, no GloboNews Em Pauta, Maria Cristina Fernandes falou de uma reação dentro da Igreja Católica a uma parcela de evangélicos que estaria mobilizando um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Estaria mobilizando. No presente. Como coisa viva, prestes a virar lei.
Era falso. O projeto que ela resgatou é o PL 2.623, apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado Victório Galli e arquivado pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008. Um papel morto há dezoito anos foi desenterrado e apresentado ao país como ameaça do momento. Flávio Bolsonaro nunca teve nada a ver com ele.
E não estamos falando de uma estagiária no primeiro dia de trabalho. Maria Cristina Fernandes é colunista do Valor desde a fundação do jornal, em 2000, foi editora de política do Valor e da Gazeta Mercantil e comenta política na CBN e na GloboNews. Uma jornalista com essa estrada sabe que checar se um projeto tramita leva menos de um minuto. Basta abrir o site da Câmara e digitar o número. Não foi feito.
A dez dias do primeiro turno. No mesmo dia em que as pesquisas eleitorais mostram a subida de Flávio e a queda de Lula. Esta emissora, se é que pode assim ser chamada, brinca com a fé de milhões de católicos.
Isso não é um deslize. É uma falha jornalística gravíssima. E, na eleição mais apertada do país, uma falha dessas tem peso de voto.
A resposta de Flávio
Flávio estava em agenda em Minas Gerais quando gravou um vídeo sobre o assunto. Disse que foi surpreendido com uma fake news, que aquilo não tinha pé nem cabeça, que o projeto não existe. E completou: “Respeito todas as religiões e também quem não tem religião.”
Depois, quando a GloboNews se retratou, ele compartilhou o trecho da correção no X e escreveu em letras maiúsculas que o projeto SEQUER EXISTE. Deixou um aviso aos eleitores: fiquem espertos, porque mentiras como essa vão aparecer todos os dias até a eleição.
Ele tem razão de estar indignado. A dez dias da eleição da vida dele, colaram no seu nome uma ameaça à santa mais amada do Brasil. Não existe ataque mais baixo contra um candidato num país católico.
O mapa da mentira
O próprio Flavo divulgou o mapa de propagação do tema “Flávio vai tirar a padroeira”, montado com o que as contas publicaram abertamente entre a madrugada de 23 de setembro e as 9h30 desta sexta. São 1.674 contas e 2.086 publicações. Dessas, 282 citam a GloboNews como fonte.
O tema já circulava nas redes antes do Em Pauta ir ao ar. Era boato de militância. A GloboNews pegou esse boato e deu a ele o que ele não tinha: um carimbo de credibilidade. A partir daquele momento, a mentira ganhou fonte.
E aconteceu o que sempre acontece. Pelo relato do InfoMoney, a análise da comentarista era sobre como a polêmica poderia favorecer Lula entre os católicos. Trechos foram recortados, arrancados do contexto e usados para colar em Flávio uma proposta que não é dele.
No centro do mapa está a GloboNews. Ao redor, dezenas de linhas de quem a usou como fonte. Entre os perfis identificados estão contas de políticos de esquerda, como @depchicoalencar, @RogerioCorreia_, @jeanwyllys_real e @aniellefranco. Estão páginas classificadas como de campanha ou frentes, como @evangelicos.comlula, @portavozdolulabr e @forabolsonaronacional. Está a @midianinja. E a maior bolha do desenho inteiro, com o maior alcance medido, é uma página classificada no levantamento como militante, a @lazarorosa25.
Deputados. Ex-deputado. Ministra. Páginas com o nome de Lula na bio. Gente que passa o ano inteiro discursando contra a desinformação e pedindo regulação das redes em nome da verdade. Quando a mentira serviu ao lado deles, a vigilância tirou folga.
O próprio levantamento faz uma ressalva, e eu a mantenho: vínculo observado não é prova de operação combinada. Mas ninguém precisa sentar na mesma mesa para agir como bando. Basta todo mundo querer que a mentira seja verdade. Agora quero ver o mesmo empenho para espalhar a correção.
O fio do dinheiro
Um dos nós do mapa tem histórico conhecido com dinheiro público. Reportagem do Estadão de março de 2025 mostrou que duas ONGs dirigidas por fundadores da Mídia Ninja receberam R$ 1,6 milhão do governo federal desde 2023, com mais R$ 2,4 milhões previstos em convênios com os ministérios da Cultura e da Justiça. As entidades negam qualquer escolha por afinidade política. Mas o movimento que diz não viver de verba pública tem fundadores à frente de entidades que vivem dela.
E o fio do dinheiro leva também ao centro do mapa.
Segundo levantamento do Poder360, o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade da Secom entre janeiro de 2023 e junho de 2026. É um quarto de tudo o que o Palácio do Planalto gastou em propaganda no período. O segundo colocado, o Grupo Record, ficou com R$ 122 milhões. Menos da metade.
Não estou dizendo que a comentarista falou o que falou por causa de um contrato. Estou dizendo um fato: a emissora que deu credibilidade à mentira é, de longe, a que mais recebe dinheiro de propaganda do governo que se beneficiaria dela. Uma empresa nessa posição deveria ter o dobro de cuidado. Teve menos.
O calendário não perdoa
O 12 de outubro, dia da Padroeira, cai exatamente entre o primeiro turno, em 4 de outubro, e o segundo, em 25. É o dia em que romeiros lotam o Santuário de Aparecida e famílias rezam o terço em casa. Quem planta uma dúvida dessas numa semana dessas sabe onde está mexendo.
E não é a primeira vez. Em 2022, correu pelas redes uma publicação falsa dizendo que Jair Bolsonaro acabaria com o feriado da santa. Mudou o candidato, mudou o ano, o roteiro é o mesmo: jogar católicos contra evangélicos e colocar um Bolsonaro no meio. Quando o golpe se repete, deixa de ser acaso.
A mentira foi dita no começo da noite e virou recorte. O recorte virou print, e o print ganhou as redes. A correção foi lida quando boa parte do país já dormia, e só ganhou alcance porque o próprio Flávio tratou de espalhá-la. A emissora errou em horário nobre e deixou para a vítima o trabalho de divulgar o desmentido.
Quem ouviu a mentira ontem não vai, necessariamente, ouvir o pedido de desculpas hoje. E desculpa não recolhe o que já saiu voando.
A mentira já circulou. Faça a correção circular também. Mande este texto para cada pessoa que recebeu a primeira versão.
Nossa Senhora Aparecida continua sendo a Padroeira do Brasil. Ninguém está mexendo nisso. Quem mexeu foi com a fé de milhões de brasileiros, para tentar ganhar uma eleição no grito.
Rogerio Pires é jornalista, professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Muito bem. Gostei do texto. A melhor coisa a se fazer é deixar de consumir produtos relacionados à marca.
Eu até arriscaria a dizer que falha jornalística gravíssima é um eufemismo, pelos precedentes.
Esse tipo de expendiente não é novo. E continuará a ser usado enquanto sanções pesadas não forem aplicadas.
No mínimo deveriam, pedir desculpas em horário nobre, pela mesma quantidade de tempo da "reportagem", por 30 dias consecutivos, além de multa pesada pela negligência profissional.