Vance pede investigação sobre cobranças de "transição de gênero" em menores
Relatório do Departamento de Saúde acusa hospitais de utilizar diagnósticos imprecisos para obter cobertura de seguros
WASHINGTON, 14 de agosto de 2026 — O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, pediu ao Departamento de Justiça que investigue hospitais e clínicas citados em um novo relatório sobre tratamentos de “transição de gênero” realizados em menores de idade.
O documento, intitulado Wolves in White Coats: How Doctors and Hospitals Pushed and Profited from the Fraud of “Gender Medicine” — “Lobos de Jaleco Branco”, em tradução livre — foi divulgado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) em 13 de agosto.
Vance encaminhou o relatório ao procurador-geral Todd Blanche, que assumiu oficialmente o comando do Departamento de Justiça em 11 de agosto. Como presidente da força-tarefa da Casa Branca contra fraudes, o vice-presidente pediu que o órgão determine se as instituições identificadas violaram leis ou regulamentos federais.
Paralelamente, o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., enviou os casos ao Escritório do Inspetor-Geral do HHS. Segundo o comunicado oficial, o objetivo é apurar irregularidades em cobranças feitas ao Medicaid e a planos privados.
Códigos de diagnóstico sob suspeita
O principal foco do relatório são os códigos médicos apresentados às seguradoras para justificar o pagamento de bloqueadores de puberdade, hormônios e outros procedimentos.
De acordo com o HHS, uma análise de cobranças realizadas entre 2015 e 2025 encontrou quase US$ 50 milhões em pedidos relacionados a bloqueadores de puberdade para pacientes de 9 a 17 anos que usavam códigos de transtornos endócrinos, especialmente o E34.9, correspondente a “transtorno endócrino não especificado”.
O governo afirma que esse código pode ter sido utilizado no lugar de diagnósticos relacionados à disforia de gênero, inclusive em situações nas quais não havia uma doença hormonal identificada.
O relatório também aponta quase US$ 11 milhões em cobranças de bloqueadores para adolescentes de 13 a 17 anos acompanhadas do código E30.1, destinado à puberdade precoce. Para os autores, o uso desse diagnóstico nessa faixa etária é um sinal que exige revisão dos prontuários e das justificativas médicas.
Os próprios autores reconhecem limitações na análise. A idade dos pacientes foi estimada apenas pelo ano de nascimento, os valores representam cobranças registradas — não necessariamente pagamentos efetivos — e os resultados são classificados como “sinais direcionais” que precisam ser confirmados nos documentos originais.
O apêndice relaciona dezenas de hospitais, clínicas e farmácias. O texto ressalta, porém, que a presença de uma instituição na lista significa apenas que ela apresentou pelo menos uma cobrança dentro dos critérios analisados, sem indicar volume ou comprovar fraude.
Incentivos financeiros
O relatório completo afirma que mais de 225 hospitais e sistemas de saúde criaram programas pediátricos de gênero nos Estados Unidos durante a última década.
Segundo o documento, pacientes que iniciam tratamentos hormonais ainda na adolescência podem demandar consultas, exames laboratoriais e medicamentos durante muitos anos. O HHS estima um custo total entre US$ 25 mil e US$ 75 mil ao longo da vida, mesmo sem cirurgias.
Com procedimentos cirúrgicos, a soma poderia se aproximar de US$ 170 mil em determinados casos. O relatório compara esses números com um gasto pediátrico médio anual de aproximadamente US$ 3 mil.
A comparação exige cautela: os US$ 25 mil a US$ 170 mil são estimativas acumuladas ou combinações de procedimentos, enquanto os US$ 3 mil representam apenas um ano de gastos. Valores cobrados e custos de tratamentos também não são, por si só, equivalentes ao lucro obtido por um hospital.
Mesmo assim, o governo Trump sustenta que a possibilidade de acompanhamento prolongado criou incentivos para transformar menores em pacientes permanentes do sistema médico.
Vídeo reforça promessa de responsabilização
Em um vídeo divulgado com o anúncio, Vance aparece ao lado de Kennedy e do secretário assistente de Saúde, almirante Brian Christine.
O vice-presidente afirma que pais procuram médicos porque esperam que o bem-estar dos filhos seja colocado acima de interesses políticos ou financeiros. Segundo ele, quando essa confiança é quebrada, o governo tem obrigação de investigar.
Christine emprega um discurso mais duro, acusa o governo Biden de ter promovido esses tratamentos e afirma que crianças vulneráveis foram submetidas a intervenções profundas apesar das dúvidas sobre evidências, consentimento informado e incentivos econômicos.
Vance encerra dizendo que a administração Trump pretende restaurar o princípio médico de “não causar dano”. Ele ressalva que a maioria dos médicos atua de boa-fé, mas defende punição para profissionais ou instituições que tenham enganado famílias e seguradoras.
Ideologia na medicina
O relatório foi encomendado pelo HHS e adota a expressão normal “procedimentos de rejeição do sexo”. Entidades como a Academia Americana de Pediatria (AAP) e a Associação Médica Americana (AMA) insistem no termo ideológico “cuidados de afirmação de gênero” e reclamam de uma interferência generalizada do governo nas “decisões clínicas”. Gênero não é ciência, mas ideologia. Todo ser humano nasce com sexo, masculino ou feminino. Não é o governo Trump que inventou isso.




