Vistos negados e perguntas proibidas
O que o regime do Brasil não quer que vejam no nosso sistema eleitoral infalível?
ORLANDO FL, 27 de julho de 2026 — Você confia no sistema eleitoral brasileiro? A pergunta parece simples. Mas os acontecimentos dos últimos dias sugerem que ela incomoda muito mais gente do que deveria.
Na sexta-feira, 24 de julho, o governo brasileiro negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado americano: Riley M. Barnes, secretário-assistente para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, e Samuel Samson, subsecretário-assistente adjunto. A informação, revelada primeiro pelo The Washington Post, foi confirmada pelo próprio Itamaraty no sábado.
A missão estava prevista para ocorrer entre 27 e 30 de julho, em Brasília. Segundo o governo americano, os diplomatas participariam de reuniões com integrantes do governo, líderes religiosos e representantes da sociedade civil, tratando de integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão. O governo brasileiro enxergou outra coisa: classificou a iniciativa como risco de interferência estrangeira no processo eleitoral, a pouco mais de dois meses da votação de 4 de outubro.
Cada um pode avaliar essa justificativa como quiser. Mas antes, vale um exercício de memória.
O que mudou desde 2022?
Volte quatro anos no tempo. Em 2022, sob o governo democrata de Joe Biden, os Estados Unidos acompanharam de perto o processo eleitoral brasileiro. E não foi discretamente. Senadores democratas enviaram carta ao secretário de Estado Antony Blinken cobrando envolvimento direto de Washington. Reportagem do Financial Times revelou depois que houve uma verdadeira campanha de pressão da Casa Branca sobre lideranças políticas e militares brasileiras, iniciada ainda em 2021 com a visita do conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan.
Na época, esse acompanhamento foi tratado como zelo democrático. Houve problemas, houve questionamentos, mas o processo seguiu, com observadores internacionais presentes e diplomacia americana ativa nos bastidores.
Agora, em 2026, com um governo republicano na Casa Branca, a mesma disposição de acompanhar o processo eleitoral brasileiro virou “ingerência”. Dois diplomatas que sequer haviam desembarcado tiveram os vistos negados.
A pergunta é inevitável: o que mudou? O sistema? Ou a conveniência de quem acompanha?
O paradoxo da urna inviolável
Há um paradoxo difícil de ignorar nesse episódio. O sistema eleitoral brasileiro é constantemente apresentado, pelas próprias autoridades, como um dos mais seguros e transparentes do planeta. O Tribunal Superior Eleitoral repete que as urnas são desenvolvidas por técnicos da própria Justiça Eleitoral, auditáveis e testadas publicamente.
Ótimo. Se tudo isso é verdade, e quero crer que pode ser, qual é exatamente o problema de receber quem quer conhecer o processo de perto?
Transparência não é um selo que se autodeclara. É uma prática que se demonstra, sobretudo diante de quem duvida. As democracias mais sólidas do mundo não temem escrutínio. Elas o convidam. Os Estados Unidos, a Alemanha, o Reino Unido recebem rotineiramente missões de observação eleitoral, inclusive de países com quem mantêm relações tensas. É assim que se constrói confiança: expondo o processo, não blindando o processo de perguntas.
É verdade que o contexto pesa. Há tarifas americanas de 25% sobre produtos brasileiros, há o contencioso em torno do julgamento de Jair Bolsonaro, há uma disputa aberta entre os governos Lula e Trump. O Itamaraty argumenta que a visita surgiu logo após um evento com críticas às urnas eletrônicas, o que reforçou a “leitura de interferência”, de acordo com o órgão.
Mas registre-se também o efeito colateral: ao fechar a porta, o governo brasileiro entregou de bandeja o argumento que dizia querer combater. Quem barra o visitante alimenta a suspeita de que há algo que não deve ser visto. Questionar não é atacar a democracia.
Chegamos ao ponto central. Nos últimos anos, discutir mecanismos adicionais de auditoria eleitoral no Brasil virou quase um tabu. Quem levanta a questão é rapidamente empurrado para a caixinha do “golpista”, como se fiscalizar fosse sinônimo de destruir.
É o contrário. Questionar, fiscalizar e aperfeiçoar processos sempre fizeram parte das democracias que funcionam. A confiança pública não se decreta por nota oficial. Ela se conquista com abertura, com auditoria independente, com a disposição serena de responder até às perguntas incômodas. Principalmente às perguntas incômodas.
O eleitor brasileiro merece um sistema que não apenas seja seguro, mas que aceite provar que é, quantas vezes for necessário, para quem for necessário.
Então volto à pergunta do início, e ela agora carrega mais peso do que há uma semana: você confia no sistema eleitoral brasileiro?
Se a resposta é sim, você deveria ser o primeiro a defender que ele seja mostrado ao mundo sem constrangimento. Se a resposta é não, os acontecimentos desta semana dificilmente vão te tranquilizar.
Rogerio Pires é professor, pesquisador, mestre, doutor H.C. em educação e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.




Eu não confio no sistema eleitoral brasileiro.