Pesquisa eleitoral ou fábrica de opiniões? - Parte II
Lemos a pesquisa Quaest pergunta por pergunta. O que encontramos no questionário oficial deveria assustar qualquer eleitor
Continuação do artigo “Pesquisa eleitoral no Brasil é termômetro ou instrumento?”, publicado na Revista Timeline.
RIO DE JANEIRO 16 de julho de 2026 — Na primeira parte desta série, mostramos por que a pesquisa eleitoral no Brasil deixou de ser termômetro para virar instrumento de campanha. Prometemos mais análises. Elas chegaram nesta quarta-feira, com selo oficial e registro na Justiça Eleitoral.
Saiu a rodada de julho da pesquisa Genial/Quaest. Você já viu a manchete: Lula abre 12 pontos sobre Flávio Bolsonaro. O que você não viu foi o questionário. Lemos o documento registrado no TSE sob o número BR-07181/2026, pergunta por pergunta. E o que está lá dentro merece ser mostrado ao leitor antes que ele acredite em qualquer número.
Foram 2.004 entrevistas presenciais entre 10 e 13 de julho, margem de erro de dois pontos, segundo o instituto, contratante Genial Investimentos, custo declarado de R$ 433 mil. Até aqui, tudo dentro do figurino. O problema não está na amostra. Está no desenho das perguntas.
Primeira prova: a pergunta do medo
Olha a pergunta oficial: o que dá mais medo, mais um governo Lula ou Bolsonaro (a família) voltar ao poder?
Pergunta do medo: Lula ou Bolsonaro (sobrenome da família)
Percebeu? De um lado, governo. Palavra técnica, institucional, neutra. Do outro, família voltando ao poder. Linguagem de clã, de dinastia, de ameaça. Por que não perguntar governo contra governo? Ou Lula contra Flávio, nome contra nome?
Isso tem nome na ciência política: enquadramento. A forma como a pergunta é feita empurra a resposta. E o resultado saiu como encomendado: 46% disseram temer mais a tal família, 38% temem mais um novo governo Lula. A manchete estava pronta antes da primeira entrevista.
Um instituto presidido por um PhD em ciência política e mestre em estatística pela UCLA sabe exatamente o que uma assimetria dessas produz. E nós consideramos impossível tratar essa escolha de palavras como descuido.
Segunda prova: a propaganda embutida
Antes de pedir a sua opinião, o entrevistador lê para você uma lista de realizações. Quem ganha até cinco mil reais ficou isento de Imposto de Renda. Descontos nas dívidas. Fim da escala 6X1. Aí vem perguntas como: “Foi beneficiado?”, “Já tinha ouvido falar?” “Sabia que a proposta foi aprovada?”
Propaganda explícita para o governo
E não foi uma pergunta isolada. O questionário oficial traz seis perguntas com descrição de programas do governo lida ao entrevistado: duas sobre a isenção do Imposto de Renda e quatro sobre o Desenrola 2.0, sempre com o resumo dos benefícios antes da opinião. Duas mil e quatro pessoas ouviram, dentro de uma pesquisa supostamente neutra, a propaganda dos programas sociais do governo federal. Ao final do bloco, o instituto celebra: 35% já se dizem beneficiados pela isenção do IR.
Agora a pergunta que ninguém fez: qual proposta da oposição foi apresentada aos entrevistados com o mesmo carinho? Nenhuma. Zero. O eleitor saiu daquela entrevista sabendo o que o governo fez por ele e sem ouvir uma palavra sobre o que o outro lado propõe. Isso não é medição de opinião. É formação de opinião com verba de banco.
Terceira prova: a balança torta dos “pseudoescândalos”
A briga pública entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro rendeu sete perguntas no questionário. Sete. Com direito a medir quem concorda com quem, quem se saiu melhor, quem se machucou mais. E parabéns à ex-primeira-dama pela produção. O vídeo ficou tão eficiente em desgastar a campanha de Flávio Bolsonaro que ganhou da Quaest uma seção inteira, com sete perguntas. Há adversários que não conseguem tanto.
Questionário sobre vídeo de Michelle Bolsonaro
O caso do senador Jaques Wagner, homem forte do PT investigado pela Polícia Federal na operação que apura o esquema do Banco Master, rendeu quatro perguntas. E a pergunta final sobre Wagner oferece ao entrevistado duas portas: o caso é uma questão pessoal do senador ou uma questão institucional do governo?Inacreditavelmente, nem uma única pergunta sobre o Lulinha e seu possível envolvimento com a fraude dos aposentados!
Registre-se, por honestidade com o leitor: o tiro saiu parcialmente pela culatra. Mesmo com a porta de saída aberta, 43% responderam que o caso é institucional, e 61% disseram que Wagner agiu errado. O brasileiro é menos manipulável do que o questionário supõe. Mas a pergunta espelhada sobre Flávio, oferecendo a ele a mesma saída honrosa, simplesmente não existe. Para um lado, contexto e nuance. Para o outro, sete marteladas.
O histórico que ninguém revisa
Quem assina essa pesquisa é o mesmo instituto que, na véspera do primeiro turno de 2022, publicou Bolsonaro com 38% dos votos válidos. A urna deu 43,2%. Mais de cinco pontos de diferença, muito além da margem de erro declarada de dois pontos.
E o número de Lula na mesma pesquisa? 49%. A urna deu 48,4%. Quase cravado, mas neste caso a pesquisa com resultado maior que a urna, favoravelmente a esquerda.
Um erro de amostragem honesto espalha imprecisão para todos os lados. Ali, o número do petista saiu cirúrgico e o do adversário saiu amassado em cinco pontos. Na avaliação deste articulista, quando o erro aponta sempre para a mesma direção, ele deixa de ser erro estatístico e passa a ser padrão que exige explicação. Explicação que, quatro anos depois, nunca veio.
E agora, a parte que ninguém te conta
Quem é o dono da Quaest? Felipe Nunes, sócio-fundador e CEO. A biografia oficial dele, publicada pela própria FGV onde leciona, informa: comentarista de política na Globo e na GloboNews e conselheiro da Fundação Roberto Marinho.
Isso mesmo. Você leu direito. O homem que produz o número é comentarista contratado do grupo que transforma o número em manchete do Jornal Nacional. E senta no conselho da fundação que leva o nome da família dona da emissora.
Felipe Nunes: comentarista de política na Globo e na GloboNews e conselheiro da Fundação Roberto Marinho
No último domingo, dia 12, o próprio Nunes anunciou nas redes que a Quaest não fará pesquisas para candidatos e partidos em 2026. Motivo declarado: concentrar esforços nas mais de 200 pesquisas já encomendadas pela Globo e suas afiliadas para esta eleição. O anúncio foi vendido como gesto de isenção. No entanto, eu enxergo outra coisa: a confissão de que um único cliente, o maior conglomerado de mídia do país, comprou praticamente toda a produção eleitoral do instituto no ano em que o país escolhe presidente.
O banco encomenda a pesquisa nacional. O instituto desenha as perguntas. A emissora, que emprega o dono do instituto, amplifica o resultado em horário nobre. Cada elo dessa corrente é público, documentado e verificável. A pergunta que fica é se um sistema assim montado tem condições de medir a opinião pública ou se apenas fabrica a manchete de amanhã.
O voto é seu
Nada do que está neste artigo é ilegal. Pesquisa registrada, contrato declarado, biografia pública. E é exatamente por isso que o eleitor precisa saber. A manipulação sofisticada não se esconde: ela se registra no TSE e aparece no Jornal Nacional.
Em outubro, quem vota é você. Não o questionário, não o instituto, não a emissora. Leia a pergunta antes de acreditar na resposta. E não deixe que uma pergunta desenhada em escritório decida a eleição antes de você chegar à urna.
Rogerio Pires é professor, mestre, doutor H.C. em educação, pesquisador e gestor público com atuação na área de educação tecnológica e políticas de inovação no Estado do Rio de Janeiro.









